Hiaces Cheios, Condutores Contentes. Dificuldades Persistem, Condutores Apreensivos

Hiaces Cheios, Condutores Contentes. Dificuldades Persistem, Condutores Apreensivos

A 19 de Outubro, os condutores de Hiaces da Ilha de Santiago paralisaram os seus serviços. A maioria deles saiu pelas artérias principais da capital e da cidade de Assomada em protesto contra a falta de reação por parte das autoridades quanto à retoma, ou não, da normalidade dos serviços.

Na sequência das medidas de prevenção da COVID-19, esta classe sofreu restrições em termos da lotação para passageiros que circulam nas viaturas. Durante sete meses, andaram apenas com a metade de lotação, o que corresponde a uma quantia de nove pessoas por cada viagem. Já era hora de “dar um basta nesta situação”, diz António Barros, condutor de hiace há mais de três anos. “Há cerca de três meses, enviamos uma carta à Autoridade Rodoviária a exigir lotação completa de 15 lugares e redução de taxas, mas não nos responderam. Assim, saímos pelas ruas, em manifestação para protestar a falta de feedback”, desabafa.

 

António Barros diz ainda que a lotação reduzida não lhes garantia qualquer sustentabilidade. “O pouco que fazíamos era praticamente para a  manutenção do carro. Não havia lucro”, lamenta. Na mesma linha, Euclides Cardoso, hiacista há quase duas décadas, operando na rota Nossa Senhora da Luz-Praia, Praia-Nossa Senhora da Luz, lembra que passaram a carregar apenas duas pessoas por cada banco. E acrescenta: “isso não compensava em nada”. Assim, devido à falta de rendimento, os condutores dessa localidade, numa posição unânime, decidiram aumentar o preço do carro de 150$00 para 200$00, como forma de suprirem as despesas que o carro exige. “A princípio, cada passageiro pagava 150$00, mas vimos que estavamos a perder muito dinheiro, lançamos assim uma sugestão aos moradores da zona, que passassem a pagar 200$00 como forma de ajudar-nos”, diz Euclides Cardoso, acrescentado que nem todos aceitaram a ideia. 

A classe dos condutores de hiaces viu desaparecer uma importante fonte de rendimento. Durante três dias, o interior de Santiago esteve sem transportes.  Muitos, abdicaram do seu dia de trabalho para se juntarem aos protestos nas ruas. Parece que finalmente o clamor dos condutores foi atendida. No dia de 31 de outubro, saiu a resolução do Conselho de Ministros que reduziu as restrições e as viaturas passaram a circular com a lotação completa. Mas, nem todos os problemas foram solucionadas, como diz António Barros: “ficamos contentes com a medida da lotação completa dos passageiros, mas os impostos ainda continuam. Pagamos impostos para tudo, imposto sobre o rendimento, imposto de circulação e ainda para renovação da licença. Por isso, pedimos a suspensão de todos eles”.

Além dos impostos, as consequências da pandemia da COVID-19 continuam a prejudicar a vida desses profissonais. Em declarações ao Jornal Arquipélago, Euclides Cardoso diz que, mesmo com a permissão para lotação completa, os hiaces estão limitados a fazer uma viagem por dia, devido à pouca circulação de pessoas. “Só posso dar uma volta, ou uma volta e meia, porque as pessoas já não saem muito, com medo da COVID-19. Tenho que esperar até o hiace encher e isso me custa horas”. António Barros, que faz a linha Praia-Fontes Almeida / Fontes Almeida-Praia, também lamenta a mesma situação. “Agora podemos carregar 14 pessoas, mas, mesmo assim não temos grande rendimento, porque há pouca circulação, então nem sempre fazemos a viagem com lotação completa. Só consigo dar uma volta por dia”. 

Apesar da retoma da normalidade dos serviços, a vida dos condutores não voltou à normalidade. Queixam-se da pouca circulação das pessoas, das longas horas à espera de lotação e dos impostos elevados. Isto é o que acontece “neste mundo”.

Os passageiros não ficam atrás quando se trata de medidas impostas aos condutores.  Os efeitos da manifestação fizeram-se sentir no maior mercado do país, a famosa Sucupira. Muitos deram conta que não havia transporte para o interior da ilha e há quem acredite que os condutores tiveram a razão de paralisar o serviço. Nilton Tavares, um jovem tarrafalense, que viaja sempre à capital tratar dos seus negócios, diz que metade de lotação que os condutores carregavam não justificava os gastos do veículo e, “além disso, pagam muitos impostos”, salienta. Jacira Mendes, estudante em Tarrafal, partilha da mesma opinião: “os condutores têm toda a razão de se manifestarem, pois transportavam pouca gente e, quando o dinheiro é usado para gasóleo, não resta mais nada. E cada um tem a sua família para sustentar”, reitera.

Quanto à segurança no hiace com lotação completa? A lotação nos transportes coletivos de passageiros é um novo quesito que já faz parte de um rol de preocupações dos passageiros quando se trata de segurança em termos de saúde física e mental. Recorde-se que só foram retomados os serviços de transportepúblico (autocarros), na Cidade da Praia, no mês de maio, depois de vários dias parado devido ao decreto de Estado de Emergência no país. Os autocarros começaram a transportar pouca gente nos primeiros dias, mas hoje o cenário é diferente. Já os hiaces só podiam transportar sete a nove pessoas, por causa da pandemia pelo novo coronavírus. Graças à manifestação e ao impulso dos condutores, hoje são permitidos andar com a lotação completa. Mas a questão que fica é: será que as pessoas se sentem seguras? Maria Andrade, de 60 anos, peixeira, residente em Porto-Mosquito, uma localidade do Concelho de Ribeira Grande de Santiago, diz que, antes da pandemia, vinha com alguma frequência à Cidade da Praia, vender peixes, mas hoje sente-se condiconada pelo vírus. Pertencente ao grupo de risco, Maria prefere ficar em casa, mas diz estar segura no hiace desde que todos respeitem as medidas de prevenção ditadas pelos agentes sanitários. Defende que “todos devem usar a máscara e o produto de desinfeção”. Nilton Tavares, o jovem de Tarrafal, afirma que, a nível da segurança, o que se deve ser feito “é colocar fé em Deus”. O mesmo salienta que, durante todo o período de campanha, ninguém se preocupou com a pandemia, nem mesmo as autoridades. Sendo assim, “os condutores de hiaces também têm o direito de viajarem com a lotação máxima, como outros veículos”. Assim, garante que se sente seguro. Jacira Mendes, também, diz sentir-se segura na viagem no hiace, mesmo com lotação completa.

Desde o início da pandemia, em Março de 2020, as viaturas dos transportes inter-urbanos vinham circulando com lotação parcial dos passageiros, inicialmente com a metade da lotação e depois com 75% da lotação. Só a partir de 31 de Outubro é que receberam a autorização para circularem com a lotação completa.

 

PLS/Jornal Aquipélago – 2020.