REPORTAGEM ARQUIPÉLAGO | Cabo-verdianos Com Sentimentos Confusos no Regresso às Aulas em Portugal

REPORTAGEM ARQUIPÉLAGO | Cabo-verdianos Com Sentimentos Confusos no Regresso às Aulas em Portugal

O novo ano letivo já arrancou em todo o Portugal.  O regresso às aulas é sempre um momento bastante entusiasmante para os alunos. É um desafio para os pais e para os encarregados de educação. Muitos – sobretudo quando os filhos vão para o ensino superior – vão ter as pessoas que mais gostam distantes fisicamente. Mas, o destino dos filhos não poderão ficar ‘presos’ aos sentimentalismos, pelo que, quando o relógio biológico ditar que se tem que ir para a Universidade, os jovens não têm mãos a medir. Abrem as asas e voam na imaginação.

 

Este ano, o início de mais um ano letivo não é comum. Por isso, não é mais um ano letivo. É o ano letivo. O ano letivo depois de uma pandemia, provocada pelo novo coronavírus, que conseguiu interromper o processo escolar, no ano anterior, a meio. Um ano a seguir ao arranque da ‘tele-escola’ como o principal sistema de ensino, num momento de recuo das sociedades, em que o isolamento se recomenda, o distanciamento social é a orientação de ordem, os ajuntamentos são proíbidos e o vírus deflagra. Em Portugal, por estes dias, o número de novos casos positivos tem superado os momentos mais críticos da pandemia, a saber, Março e Abril. O  primeiro-ministro, António Costa, praticamente tem ‘gritado’ com as pessoas para cumprirem as  recomendações das autoridades sanitárias porque, segundo o mesmo, não se pode imaginar uma segunda vaga de paralizações, com decretação de estado de emergência. Portanto, este é o contexto do novo ano letivo... com o coronavírus ativo e vigilante.

Em Portugal, o que não falta são cabo-verdianos. A viver. De passagem. A estudar. A empreender. Em tratamento. Em vigilância médica. Um pouco de tudo. Os casos são diversos. Assim sendo, os cabo-verdianos residentes em Portugal carregam vários   sentimentos neste início de um ano letivo particular. Para se adaptarem a esta nova realidade da educação, muitos fazem todo o esforço possível.  

Jailson Nunes é um jovem micaelense. Estuda o segundo ano do curso de Direito da Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo (ESCAT), na cidade de Mirandela. Para este ano letivo, Jailson Nunes transporta dois sentimentos: de um lado, a insegurança; do outro, o positivismo.  Com o sonho vivo de ser advogado, o jovem considera que, apesar de ser um ano diferente no sistema de ensino, tem um espírito positivo para enfrentar os novos desafios académicos.  “Estamos numa situação em que somos muito limitados, tanto no recinto escolar, como fora dele. Portanto, tenho que ser um estudante o mais autónomo possível e é neste momento que tenho que dar o melhor de mim”, salienta, relevando um olhar que pretende ser confiante para o seu futuro.

Preocupado e mergulhado na incerteza, Jailson Nunes queixa-se da não consciencialização dos estudantes sobre o facto de se estar a viver uma época de pandemia e que as restrições devem ser efectivas, limitando inúmeras coisas que, no passado, se fazia.

Na cidade de Bragança reside Márcia Gonçalves. Ela é cabo-verdiana e tem no estudo a sua principal motivação. No seu terceiro ano de licenciatura em Farmácia, considera estar tranquila com a situação da pandemia na época escolar, já que há a possibilidade de assistir as aulas por via ‘on-line’, o que, para ela, permite a diminuição de contágios pelo novo coronavírus. Mesmo com um espírito sossegado, um pouco de preocupação também desperta-se na consciência de Márcia. Afinal, estes tempos são tempos-outros. “O aumento do número de casos de infetados é a minha maior preocupação e, na época escolar, a situação não é a melhor. Por isso, prefiro que as aulas permaneçam on-line para evitar os riscos, de modo a que o ano seja produtivo”, afirma Márcia Gonçalves.

 

Márcia Gonçalves

 

O medo, a insegurança e a desconfiança são alguns dos constrangimentos que têm acompanhado o dia-a-dia das pessoas, desde a chegada do novo coronavírus.  As medidas estão a ser tomadas e as regras cumpridas, mas, no recinto escolar, evitar a aglomeração de pessoas ainda custa muito. Pois, apesar de as aulas estarem a ser ministradas por via ‘on-line’, o ensino presencial ainda continua. É neste sentido que Luvania Varela, cabo-verdiana em Portugal e estudante do segundo ano de curso de Criminologia no Instituto Universitário da Maia, questiona se vale a pena regressar às aulas neste tempo, tendo em conta que há uma grande interação com os colegas e as possibilidades de se evitar o contágio não são muitas.

 

Luvania Varela

 

O COVID-19 também percorre no caminho dos mais pequenos.  No infantário e no pré-escolar, a maioria das crianças encara o espaço de forma natural. Inocentes, alguns desconhecem o tempo atual. Por isso, o cuidado estende-se aos pais e professores.

Deise Pina vive na cidade do Porto e é mãe de um bebé de dois anos.  Pela primeira vez, o filho Rafael frequenta o infantário, um momento que deixa esta jovem-mãe preocupada. “O tempo em que vivemos é de muito medo. Com a abertura dos creches e das escolas, os riscos aumentam e as crianças não podem deixar  de ser quem elas são. Têm de brincar com os outros, desconhecem a situação e nem podem usar a máscara, o que facilita a transmissão do vírus”, afirma Deise Pina.

Na mesma cidade, também, vive Dannylo Pina, pai do pequeno Lucas, de quatro anos, que se encontra na fase do pré-escolar.  Dannylo conta que mandar um filho menor para a escola neste momento não é fácil. Contudo, inicialmente teve um pouco de receio, pois, apesar de a escola adotar medidas de segurança, garante que ainda há quem não cumpra as regras. Isso pode pôr em causa a saúde do filho. Seguro, este jovem acredita que o tempo vai voltar à normalidade. Enquanto isso, defende que a sua missão é proteger o filho. “A minha maior preocupação sempre foi o bem-estar, o amor, o carinho, a segurança e a educação do meu filho. Na situação em que vivemos agora, proteger o meu filho do vírus é fundamental. Por isso, estou ciente de que qualquer situação ligada à COVID-19, ele vai ficar em casa”, salienta.

Diferente dos casos relatados acima, este ano a educação da Nelcy foi interrompida pela pandemia. Tem quatro anos de idade e ia para o seu último ano do pré-escolar.  Jéssica Silva é a mãe. Vive em Lisboa, em Almada. Segundo conta, a filha é portadora de uma doença chamada “asma” e, nesta situação de COVID-19, o risco é maior. Por isso, teve que anular o estudo da filha.  “A escola fica muito longe de casa. Temos que apanhar os transportes públicos para chegar ao local e teremos de nos cruzar com várias pessoas. Por medo e pela proteção da minha filha, resolvi mantê-la em casa”, ressalva Jéssica Silva.

A COVID-19 tem sido uma das maiores preocupações da sociedade atual. Uma pandemia que se alastrou no mundo, alterou as formas de viver e restringiu a socialização humana. Segundo o boletim epidemiológico da DGS, de Portugal, os últimos dados apontam para um total de 79.885 infetados, 50.454 recuperados e​ 2.018 vítimas mortais.


Ana Cristina Gonçalves / Jornal Arquipélago

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