REPORTAGEM | AZÁGUA: Ano Agrícola a Várias Velocidades em Santiago

REPORTAGEM | AZÁGUA: Ano Agrícola a Várias Velocidades em Santiago

Depois de três anos de seca, que gerou muita preocupação no seio das pessoas e uma instabilidade na segurança alimentar dos cabo verdianos, este ano o cenário é diferente. Porém, os camponeses têm registado desigualdade e irregularidade em relação à agricultura, apesar de que já se tenha registado uma certa quantidade de chuva, que veio ‘abraçar’ a esperança dos cabo-verdianos nos últimos dois meses.

Ivanilda Pinto Semedo é uma jovem de 27 anos. Residente em Achada Ponta, uma pequena localidade no interior de Santa Catarina de Santiago. É formada na área de Secretariado e Apoio à Direção. Neste momento, a jovem é estagiária e desempenha a função na Secretaria Geral e Atendimento ao Público na Câmara Municipal de Santa Catarina de Santiago. Ela diz fazer o seu trabalho com muito orgulho, dedicação e amor.

Ivanilda Pinto Semedo vê a agricultura como uma opção. Tendo em conta que, atualmente, nem todas as pessoas praticam a agricultura devido à escassez da chuva no país, a produção dos camponeses cabo-verdianos já não é o que era nos outros tempos. A jovem acredita que aqueles que estão a praticar a agricultura de sequeiro é devido ao hábito e aos costumes e não porque se trata de uma forma de se destacarem na vida. Ivanilda Pinto Semedo mostra-se esperançosa e diz que, embora a chuva tenha chegado um pouco tarde na localidade de Achada Ponta, regista-se um desenvolvimento esperançoso nos campos. Defende que, se a chuva não faltar, os camponeses dessa pequena aldeia vão colher frutos, ainda que seja em pouca quantidade. Os desafios são muitos e já se começam a notar as pragas de ganfanhotos e lagarta do milho.

Ainda que este ano tenha havido uma quantidade considerável de chuva, os agricultores afirmam que não é em todas as localidades que as colheitas estão garantidas, pelo facto de a chuva ter chegado um pouco tarde em algumas localidades do interior de Santiago. Porém, mostram-se esperançosos.

Achada Ponta é uma pequena localidade do interior da ilha de Santiago, pertencente ao concelho de Santa Catarina de Santiago. Recebeu as primeiras chuvas em Setembro. A partir daí, os camponeses encheram-se de esperança e recomeçaram a faina, com a prática da segunda sementeira, que teve o início entre oito a doze de Setembro.

Hilário João Câncio Lima, de 54 anos de idade,  é natural de Guiné Bissau. É filho de pais cabo-verdianos e atualmente residente no interior do concelho de Santa Catarina de Santiago, na localidade de Figueira das Naus. Atualmente, é coordenador  da Escola Primária Desidório dos Reis Borges, em Figueira das Naus, onde tem lecionado durante 20 anos. “É com muito prazer que eu educo as crianças e o meu maior orgulho é ver os meus ex-alunos a ocuparem grandes funções na sociedade, tanto a nível nacional, como internacional”. Este professor vê a agricultura, em Cabo Verde, como um meio de subsistência desde o tempo antigo. Lamenta que ainda tenha continuado de uma forma rudimentar.

Para uma maior produção da agricultura em Cabo Verde, Hilário João Câncio Lima sugestiona ao Estado de Cabo Verde entrar com os tratores agrícolas, onde as pessoas controlam as máquinas que vão ser utilizados pelas famílias que têm campos maiores e que ajudam na produção para uma maior garantia da colheita.

Para Hilário João Câncio Lima, em Figueira das Naus, a azágua estará garantida apenas com mais uma chuva, que irá ajudar alguns lugares onde o terreno é fraco. Contudo, lamenta a chegada das pragas nesta localidade e apela à equipa do combate às pragas da agricultura (MAEA) a tomarem medidas urgentemente para ajudarem os camponeses a resgatarem e a garantirem as suas produções.

“A prática da agricultura em Figueira das Naus deve-se à subsistência, sendo que cada família produz de acordo com as suas condições, por razões simples falta de máquinas agrícolas, que podiam ajudar no trabalho de campo mais extenso”, argumenta Hilario João Cancio Lima.

Enquanto em algumas localidades do interior de Santiago os camponeses já começaram a colher os frutos e a saboreá-los, em outras, porém, os camponeses estão a terminar de fazer as primeiras mondas. 

Fazendo um "tour" pela interior de Santiago, o Jornal Arquipélago verificou que, em algumas localidades, os camponeses já garantiram a ‘azágua 2020’. É o caso, por exemplo, de Pilon Cão, no Concelho de Calheta São Miguel, Biscaínhos no Concelho de Tarrafal de Santiago, entre outras localidades.

Em algumas localidades, além de a chuva ter chegado um pouco tarde, as pragas de ganfahotos estão a piorar a situação dos camponeses. 

De realçar que a agricultura é a maior fonte de rendimento para uma grande percentagem da população cabo-verdiana, sobretudo no mundo rural, onde a maioria das famílias vivem essencialmente dessa atividade económica.

 

PV - Jornal Arquipélago