O Sentido do Amor

O Sentido do Amor

 Hoje, o nosso jornal vem conversar consigo sobre uma questão muito importante e muito sensível. Mas, não é uma coisa que está à flor da pele. Está no âmago do seu eu. Se você conseguir derrubar todas as portas do seu ser e não a encontrar dentro de si, deverá ter trazido algum defeito de fabrico. Na verdade, é uma coisa que move todas as montanhas do mundo. Ela é humana. Tão humana quanto divina. É sublime. Está praticamente acima de tudo. A vida está um palmo acima dela, mas abaixo da vida ela está ao lado da liberdade: é o amor. Aquela coisa que, de tão simples, de tão simples, vira fogo... e, em Camões, ‘arde sem se ver’... e mais... ‘queima e não se sente’. O amor é isso. Isso aí. Não há uma definição para ele... porque, não dia em que houver uma definição que capte todas as suas métricas, ele se definha. Tem magia quando nenhum significado cabe nos seus quadrados. Afinal, nem quadrado é. É isso aí. O amor não é quadrado. Também não é redondo. Nem é triangular. O amor é aquilo que sente quando todos os significados se desvanecem.

O amor não é aquilo que relata o passado de Romeu e Julieta. Não. Isso é literatura. Mas, o amor é... porque tem de ser. É mais do que um verbo. Sentimentos conjugados em tempos verbais. Ultrapassa todos os ditongos e consoantes. É vocativo. Invoca. Convoca. Provoca. É o ser perdido no desvanecer de mundos e sentidos. O amor é isso.

Pára aí! Vamos com calma. Viemos aqui para desvendar o sentido do amor. E, nisto, já vendamos um cem número de sentidos desconcertados e sem sentido. E nisto, procuramos o que pretendemos que seja o sentido do amor. E nisto, vamos aos poetas. Talvez eles possam enunciar-nos o caminho. Ninguém consegue saber o quanto Camões amou. O que se sabe melhor é o quanto escreveu sobre o amor. E, nisto, terá amado pelo caminho. Na verdade, ninguém escreve o sublime se não conhecer o seu âmago. Discutível? Para si. Para nós, apenas certezas. Alguém que nunca amou não escreverá o sublime que existe no amor. Camões, o homem do fogo que arde sem se ver, é tão ‘Lusíadas’ quanto lusitano. Talvez, um pouco mais: é o grande épico lusitano. É aquele que, na sua escrita, resplandeceu o amor e transcendeu as grades de todos os sentimentos. Amar é isso... é quebrar... é como os nossos irmãos brasileiros dizer: ‘botar para quebrar’. Quebrar a dor. Quebrar o mal. Quer o sofrimento. Quebrar a distância. Quebrar os preconceitos. Quebrar as barreiras... quebrar... quebrar... e continuar a quebrar. Isso é amar. Mas, amor é muito mais do que isso. Porque amor é o apogeu. É quando, depois de uma enxurrada, as badaladas regressam ao sino... e o Rei suspira de alívio. O silêncio impera. E o diabo adormece na cruz, numa paz que só existe no paraíso dos universos de encantos.

Pablo Neruda é desconcertante. Perde todos os fios do horizonte e se apresenta no desespero de um ser que lhe corrói todas as direções do seu sentido. Por isso, apresenta-se como um padre nu no altar:

 

“amo-te sem saber como nem quando,

nem onde amo-te diretamente sem

problemas, nem orgulho

amo-te assim porque não sei

amar de outra maneira”.

 

Será que você já amou assim? Amou e perdeu direção? Sem saber porquê? Quando? Onde? Sem cogitar a possibilidade de, de outra, amar? Se sim... para quê procurar o sentido do amor? Não há sentido externo quando o sentido está dentro de si. Ame. Perdidamente. É o que fica. O resto morre. 

Boa noite. Feliz segunda-feira. Boa Semana. 

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