ANÁLISE/PORTUGAL | Marcelo Rebelo de Sousa é Candidato Presidencial. Apanhou uma ‘Machadada’ da COVID-19

ANÁLISE/PORTUGAL | Marcelo Rebelo de Sousa é Candidato Presidencial. Apanhou uma ‘Machadada’ da COVID-19

 

Marcelo Rebelo de Sousa já desfez todas as interrogações sobre a possibilidade de ser ou não candidato à Presidência da República de Portugal, neste caso, candidato à sua própria sucessão, uma vez que já vem de um mandato que se aproxima ao fim. É candidato e vai ganhar. Pelo menos, é o que deixam antever as sondagens, que não reservam nenhuma réstia de esperança para qualquer outro candidato que vier a enfrentá-lo.Os ‘media’ portugueses caracterizam-no como uma pessoa de uma conversa de homem para homem, o mesmo estilo ao qual habituou os portugueses desde há 20 anos. E é nesse estilo próprio que Marcelo Rebelo de Sousa apresentou, ontem, a sua recandidatura à presidência da República de Portugal. Igual a si próprio. Defendendo o que sempre defendeu. Diz que quer continuar a ajudar Portugal. Desta vez, a ajudar o país a refazer-se da crise provocada pela pandemia do novo coronavírus.

 

Marcelo Rebelo de Sousa sempre se deu bem com a comunicação social. É, praticamente, um ‘medium man’. Construiu uma sólida carreira de comentador televisivo, que teve grande expressão na TVI e na RTP. E Marcelo, como si próprio, não tem medo da comunicação social... e nem das sondagens.

Para já, quanto às sondagens não vai mal. Elas continuam a dizer muito daquilo que sempre disseram: Marcelo Rebelo de Sousa irá ganhar as eleições em 2021. E dizem outra coisa ainda: que ele ganhará na primeira volta. Mas, as sondagens já não dizem tudo o que diziam antes da pandemia: é que nessa época, praticamente, Marcelo Rebelo de Sousa iria assombrar qualquer outro candidato de forma histórica: com uma maioria reforçadíssima que ultrapassaria a marca dos 70,35% que Mário Soares alcançou na sua reeleição, em 1991. Nessa altura, Mário Soares era um animal político. Um ‘touro bravo’, praticamente. Conseguiu aquilo que ninguém mais conseguiu em Portugal, em termos de agigantamento do resultado eleitoral nas presidenciais. Acima dos 70 por cento. Uma verdadeira obra.

Se não fosse a pandemia provocada pelo novo coronavírus, Marcelo Rebelo de Sousa desferir-lhe-ia um golpe certeiro e anularia o seu recorde. Uma guerra de flancos: Direita e Esquerda. Mas, Marcelo Rebelo de Sousa, neste 2020, apanhou uma “machadada” da pandemia provocada pelo novo coronavírus. O mundo está ‘de tangas’ – diria Durão Barroso. Só um parêntese aqui: quando tomou o país na baixa década de 2000, mais concretamente em 2002, Durão Barroso encontrou o país num ardente ‘stress económico’. Ficou sem saber o que fazer com um país em crise económica. Desferiu um golpe de palavras: “o país está de tangas”. Na primeira oportunidade que lhe surgiu, abandonou o país e saiu a correr para a liderança da Comissão Europeia. Ali, praticamente, encontrou a sua galinha de ovos de ouro. Deixou o país a Pedro Santana Lopes. Uma herança ‘podre’, portanto. Mas, não se podia dizer que era um presente envenenado, até porque Barroso foi muito claro quando disse que o país estava de tangas. De tangas, também ficou Pedro Santana Lopes. Assumiu o país em 2004 e caiu em 2005. Caiu, até de uma forma quase patética, quando decidiu brigar com toda a comunicação social. Um tiro no pé... com certeza. Um país de tangas e um Primeiro-Ministro a abrir guerra com os ‘media’ de alto a baixo: uma verdadeira crónica de uma morte anunciada.

Nessa altura de atrito entre o então Primeiro-Ministro Pedro Santana Lopes e a comunicação social portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa era comentador, aos domingos, da TVI. Saiu de dia para noite, quase como um indigente. É mais do que isso... correram com ele. Porquê? Os ‘media’ da época fizeram soar as razões desse tempo: a PRISA, grupo espanhol que controlava a TVI como accionista maioritária na Media Capital – alegadamente – disse a Marcelo Rebelo de Sousa que tinha que deixar a estação de Queluz de Baixo (TVI) porque já não havia espaço para ele. Porquê? Porque a postura de Marcelo era muito crítica, assertiva e directa e punha em causa muita coisa que envolvia Pedro Santana Lopes, o seu governo e as suas envolventes governamentais. Por isso, embora a Media Capital, empresa detentora da TVI, fosse privada, muitos dos negócios que poderia querer desenvolver em Portugal e que precisariam do aval do governo de então poderiam ficar por terra. Por isso, a ordem era para calar Marcelo. Marcelo Saiu. Logo, Marcelo que é do PSD. E Pedro Santana Lopes também liderava um governo do PSD. Isso mostra uma coisa tão simples: dentro de um mesmo partido, a guerra é, muitas vezes, mais dura que nos idos tempos do Iraque.

Voltemos ao Marcelo Rebelo de Sousa e à sua recandidatura presidencial: antes da pandemia, o prognóstico era de que ele iria ultrapassar a barreira dos 70,35% de Mário Soares. Com a chegada do novo coronavírus, esse prognóstico caiu por terra. Aquilo que as sondagens dizem dele hoje não é o que diziam no princípio do ano. Ainda assim, não se lhe pode negar o mérito: irá ficar em segundo lugar em termos de recorde de percentagem de votação nas presidenciais em 2021, ultrapassado apenas por Mário Soares. Elege-se na primeira volta. Ofuscará os cerca de 8 candidatos que têm posicionado para abraçar uma candidatura presidencial em Portugal.

O ano 2021 já está à porta. Marcelo Rebelo de Sousa não pretende deixar a porta do Palácio de Belém. Faça chuva, faça sol. André Ventura espreita-lhe por uma fresta da janela. Já o elegeu como adversário. Falta saber até onde as pernas suportam-lhe o caminho.

 

Jornal Arquipélago – 2020.