A Vacina Chegou. A Imunização Começou. Outras Pandemias Virão

A Vacina Chegou. A Imunização Começou. Outras Pandemias Virão

A nossa geração nunca tinha pensado viver a situação que vive hoje. Nunca pensou que teria que enfrentar uma pandemia. Nem imaginava como seria algo do tipo. Sempre achou que coisas dessas acontecem aos outros. Com as outras gerações de povos. Com outras pessoas que viveram outros tempos. Sempre achou que são coisas dos livros de História. Mesmo as epidimias que afligem os países vizinhos, daqui de Cabo Verde, elas são vistas de longe. Coisas dos outros. ‘Das Áfricas’, por exemplo... como a Ébola na Serra Leoa e nos países da sua vizinhança. Porém, todos os males do mundo são nossos. Podem nos tocar a qualquer momento. Por isso, no estágio em que o mundo se encontra, sempre devemos nos encontrar preparados, pelo menos espiritualmente, para enfrentar qualquer desafio. O mundo é nosso. Os seus problemas, também, são nossos. Por mais que distantes se encontrem. As fronteiras do mundo caíram há muito. Por isso, os indivíduos que habitam os confins do mundo são os nossos vizinhos.

 

Olhar o Mundo da Pandemia

Vivemos tempos bem difíceis. Tempos para os quais não nos preparamos. Mas que, qualquer dia, podiam chegar. Só não sabíamos quando. É como a morte. Um dia chegará. O dia e a hora, ninguém sabe.

Quando o novo coronavírus apareceu em Wuhan, na China, quase ninguém percebeu bem o que se estava a passar. Nem mesmo a OMS. Apenas a China. A resposta enérgica que ela deu mostra que conhecia o problema mais do que ninguém. Permeava o problema no seu âmago.

Do outro lado do mundo, as pessoas pensaram que se tratava de algo dali da China, que ficaria por ali. Assistir às notícias sobre o avanço da doença e as duras medidas do governo chinês, de longe, dava algum conforto aos cidadãos de outros países e de outros continentes. ‘É algo que está a se passar lá na China’ – assim pensavam as pessoas. A preocupação maior era conseguir meios para evacuar os familiares que se encontravam na China. Sim! Não dava para ficar ali. O problema era da China – pensávamos.

O coronavírus deu um salto de gigante. Precisou de pouco tempo para começar a se manifestar na Europa. Começou na Itália. Ali fez uma espécie de ‘pilhagem’. Coisa que não se assistiu na China. Se aconteceu, foi escondido. O mundo cá fora não conhece muito bem o que se passa nesse país asiático. Não se lhe conhece todos os meandros da coisa. Não se sabe muito bem onde começou o coronavírus de 2019 e nem onde parou dentro do território chinês. Portanto, os números que a China apresenta são mesmo números da China. O mundo duvida. Mas, não tem como confirmar. Nem infirmar. Por mais que esse país asiático se tenha aberto ao mundo, continua fechado. Comunica aquilo que entende.

Com o coronavírus na Europa, praticamente tudo se lixou. Itália, membro da Comunidade Europeia – um conjunto de países praticamente sem fronteiras, em que as pessoas atravessam as fronteiras a pé, de carro, de comboio, de avião ou mesmo de bicicleta, com um controlo fronteiriço mínimo –, lançou o alerta. Portanto, o coronavírus ganhou um passaporte vermelho, daquele tipo de PE (passaporte electrónico), que lhe permitiu passar pelas fronteiras sem ter que passar pela polícia. E assim foi. Viajou. Calcorreou a Europa a pé.

Da Europa para a África era um piscar de olhos. As fronteiras dos países africanos continuaram abertas. Até o vírus entrar. Se os países da Europa adormeceram no ataque às fronteiras em relação, não só à China, mas a toda a Ásia, os países africanos teriam na Europa o espelho para agirem na antecipação. Porém, dormiram um pouco mais. Tudo continuou na tranquilidade – e claro – era esperar quando os primeiros casos começariam a aparecer em África. E apareceram. Com sorte, todas as previsões dramáticas da OMS em relação à propagação e à ‘pilhagem’ do coronavírus em África falharam. Sim. As favelas. O facto de as pessoas viverem mais na rua do que dentro das casas. A pobreza extrema. A falta de condições de salubridade em vários cantos do continente africano. As frágeis condições hospitalares. A carência de medicamentos e de meios técnicos. A falta de profissionais qualificados. Tudo isso. Tudo isso foi apontado como factor para que o coronavírus viesse a fazer uma ‘matança’ nunca antes visto em África. As previsões falharam. E ainda ninguém conseguiu explicar esse falhanço.

A América. A América fica ali. No outro lado do Atlântico. Ali... sim. O coronavírus passou da palavra à ação: mortes em proporções gigantescas.

Quando o novo coronavírus entrou nos Estados Unidos da América, um especialista da Casa Branca que assessorava Donald Trump à época, tinha lançado um prognóstico: mínimo 100 mil mortes. Máximo 300 mil mortes. Neste momento, o país está a menos de dez mil mortes para alcançar o tecto máximo previsto. E a vacina chegou.

 

Teste à Ciência

O novo coronavírus lançou um grande desafio à Ciência: descobrir um meio de imunizar a humanidade enquanto um vírus solto, desgraçadamente, mata de forma descontrolada. Os cientistas não se hesitaram. Lançaram mão à obra com confiança. Pelo meio, lia-se de tudo. Alguns encorajamentos, outros que desencorajam o caminho. “A vacina para estar pronto é preciso, no mínimo, cinco ano” – ouvia-se. Outros apontavam 3 anos. E havia ainda diferentes dizeres. Cada um com a sua crença... mais do que isso: com o seu medo. O seu receio.

Antes de completar um ano do conhecimento público do surgimento do novo coronavírus na China, a primeira vacina foi administrada a uma mulher de 90 anos na Inglaterra. É caso para dizer que a Ciência está de muito boa saúde. A sensação com que se fica é que a Ciência tem formas pré-feitas para muitas coisas. E, provavelmente, para muitas outras enfermidades que assolam o mundo. Talvez, as soluções não tenham vindo, ainda, à luz do dia porque muitos dos problemas de saúde que pululam pelo mundo não se tornaram ameaças tão emergentes, tornando a parede que separa a vida da morte em algo muito ténue. Com o coronavírus é diferente. Veio para matar. Sem dó, nem piedade. Empurrando corpos para valas comuns. Talvez seja esse o desafio que tenha colocado a Ciência numa viagem tão acelerada rumo a uma solução para o novo coronavírus.

Há, no mundo, grandes empresas que têm a sorte de milhares e milhões de pessoas nas suas mãos.

No espaço de um ano, são várias as soluções construídas em termos de respostas para o combate ao novo coronavírus. Por estes dias, são várias as vacinas que já foram apresentadas e que estão prontas para entrarem no mercado: a da Pfizer/BioNTech apresenta eficácia na ordem de 95%, sendo administrada em duas doses, com intervalo de tempo de vinte um dias entre elas; a da Moderna assegura 94,1% de eficácia e, também, já está pronta para ser comercializada; a da Oxford/AstraZeneca vai com 70% de eficácia; a Sputnik V, da Rússia, é apresentada como um produto com eficácia de 91,5%; a CoronaVac diz ter alcançado eficácia na ordem dos 86%. A vacina russa tem uma particularidade. Quem a tomar, terá que ficar 42 dias sem ingerir álcool. Logo, em pleno inverno; logo, na Rússia. Um grande sacrifício para muita gente, com certeza.

Para essas vacinas todas, os testes foram concluídos, quase sempre, ao mesmo tempo, mostrando que, basicamente, os cientistas envolvidos nesses processos de descoberta estariam a trabalhar, todos eles, a uma velocidade de cruzeiro. Os resultados alcançados são promissores e são um alívio para o mundo. Basicamente, é iniciar uma longa caminhada da desconstrução do caminho que a pandemia fez. Depois disso, é reconstruir tudo o que ela deitou abaixo.

A ciência está de boa saúde. Se o mundo todo juntasse para trabalhar para o bem do mundo todo, o mundo todo estaria muito melhor do que está todo o mundo. Porém, o problema de todo o mundo é o do egoísmo míope, que acaba por afetar o mundo todo.

 

E a Vacina Chegou

Sim. Chegou. Chegou quando todo o mundo perdeu mais de 1.5 milhão de almas. Chegou para quebrar a cadeia de transmissão. Os objectivos das vacinas são bem claros: criar imunidade de grupo. É uma espécie de levantamento de um cerco ao vírus para o combater dentro de um ringue. A ideia de Boris Johnson, primeiro-ministro britânico, no início da pandemia, era mais ou menos essa: vacinar todo um país, com um vírus ‘vivo’. Não havia imunizantes produzidos pelos laboratórios. Portanto, numa situação de quase desespero, alguns especialistas apontaram-lhe o caminho. É qualquer coisa como não deixar o país parar. A ideia é que, expondo uma grande massa das pessoas aparentemente saudáveis ao vírus, o próprio organismo dessas pessoas se cuidava de criar as imunidades de forma natural e, com isso, se levantaria um cerco ao vírus e, desta feita, poder-se-ia ganhar o combate à pandemia internamente. Porém, os riscos não eram poucos, uma vez que ampliava a possibilidade de o vírus chegar àquela camada mais frágil da população. E ali, praticamente, ele não perdoa. Outrossim, havia um desconhecimento sério sobre a durabilidade da imunidade que se ganharia com a contração do vírus. Os resultados de uma política de uma certa tolerância ao vírus que aconteceu no Brasil, Estados Unidos e Reino Unido foram desastrosos e, rapidamente, com mais ou menos resistência, tiveram que ir para ‘lockdown’. Com mais ou menos resistência. No Brasil, por exemplo, era o discurso de Bolsonaro contra o de alguns governadores de estados: o Federal mandava abrir, o Estadual mandava fechar: governo contra governo. Povo contra povo: havia e há adeptos de ambos os lados.

 

Outras Pandemias Virão

Resolver o problema deste coronavírus não significa o fim das pandemias. Haverão outras... com certeza. Assim a história nos ensina. Quando? Não sabemos. Se estaremos aqui para enfrentá-las, também, não o sabemos. Só sabemos que as dinâmicas do mundo assim funcionam.


Silvino Lopes Évora | Professor Universitário | Articulista