Ajuste Psicológico dos Jovens na Escola em Tempo da COVID-19

Ajuste Psicológico dos Jovens na Escola em Tempo da COVID-19

Como sabemos, o ajuste psicológico está associado ao recurso a estratégias de afrontamento que permitem manter um nível de funcionamento psicológico, orientado a estabelecer algum nível de equilíbrio entre as necessidades internas do sujeito e as exigências ambientais. Por isso, sãodiversos os factores contextuais e individuais que estão associados aos comportamentos de ajuste ou de desajuste psicológico nos adolescentes e jovens, em geral, e no contexto escolar, em particular. O controlo emocional ou a inteligência emocional, a auto-estima, a resiliência e a satisfação com a vida e o apoio social recebido ou percebido da família, dos amigos e das instituições são, ao nosso ver, alguns fatores internos e externos que contribui para o ajuste psicológico dos jovens. Neste contexto, a escola é uma instituição que fornece o processo de ensino para alunos, com o objetivo de formar e desenvolver cada indivíduo em seus aspectos cultural, social e cognitivo. No entanto, ela tem a função primordial de socializar,humanizar, ensinar a aprender ou aprender a aprender e desenvolver o senso crítico e em última análise, tem a função de formar os jovens para a cidadania consciente, autónoma e responsável, ou seja, em última instância, prepara os jovens para estarem mais ajustados social, cultural e psicologicamente e enfrentarem as vulnerabilidades e as adversidades da vida quotidiana.

Não obstante, com a chegada do COVID-19, doença causada pelo novo coronavírus, a crise instalou-se globalmente e com um forte impacto na vida de todas as pessoas em geral e dos jovens, em particular. Senão vejamos: em 218 territórios, até ao dia 26 de setembro, de acordo com os dados da CORONAVIRUS PANDEMIC COVID-19 LIVE WORLD MAP/COUNT tem-se já contabilizado 32,773, 112 casos de infetados, com um total de 994,624 mortos e um total de 24,125,030 recuperados e no caso concreto de Cabo Verde já causou mais de 5,628 casos e mais de 55 vítimas mortais. Em última análise, podemos afirmar que o novo coronavírus é um fenómeno que ameaça a saúde física e mental de toda a população e provoca raiva, incertezas, ansiedade e uma sensação de um presente cortado. Ou seja, vivemos hoje numa experiência adversa e potencialmente traumática. Por isso, torna-se imperativo um esforço para a compreensão psicológica, sobre os potenciais efeitos da condição da adversidade da pandemia no desenvolvimento do ajuste dos jovens/ adolescentes.Dificilmente, a ameaça de uma doença ocupou tanto o nosso pensamento, provocando o medo e a insegurança e resultando numa ansiedade elevada, com efeitos imediatos na nossa saúde mental.Segundo alguns especialistas, o medo de ser contagiado leva-nos a tornar mais conformistas e tribalistas e menos tolerantes à excentricidade. Também, os nossos julgamentos morais tornam-se mais severos e as nossas atitudes sociais são mais conservadoras.

Neste contexto, no início da pandemia, no que diz respeito à educação, as aulas presenciais foram suspensas em quase todo o mundo e passando para as aulas online, ou seja, o método de ensino à distância provocando, por um lado, o distanciamentosocial e afetando a saúde mental das crianças, dos adolescentes e dos jovense, por outro, criando mais um obstáculo para a adaptação das famílias na convivência diária em casa.E como sabemos, a perda da liberdade constitui um aspeto muito difícil para osadolescentes e jovens. Estes, devido a várias interrupções de eventos de vida importantes, sentem-se preocupados, aborrecidos e frustrados, o que pode provocar o medo e o stress e se sentirem inseguros. Ter de ficar em casa forçosamente tem sempre impacto negativo na saúde mental dos jovens. Também sabemos que a adolescência/ juventude é uma fase onde se registram altos índices de crises de ansiedade, depressão e suicídio. A pandemia é um evento de muito stress que desencadeia desordem nos ambientes, principalmente nos jovens que tem muita força e energia, por isso, muito vulneráveis a riscos de contaminação e com muitas consequências na saúde mental. É de referir que uma das regras e as medidas para travar o maior contágio do coronavírus foi o confinamento ou isolamento que causou bastante medo, ansiedade e a depressão,de acordo com Elke Van Hoof, professora de psicologia da saúde na Universidade de Vrije, em Bruxelas, e especialista em stress e trauma. Para oBBCNews Mundo (2020),o confinamento é 'o maior experimento psicológico da história'.Ou seja, pode levar a consequências psicológicas em grande parte da população.Atualmente, em muitos países, várias escolas estão a reabrir e outros continuam com o método de ensino à distância.

Perante este novo normal, o maior desafio dos pais, dos familiares em geral e da escola durante o período de isolamento social, é ajustarem a rotina dos jovens. Também é uma grande oportunidade para que todos dialoguem entre si e planifiquem, concebam e desenvolvam programas comuns. É o momento que os jovens devem ser estimulados, incentivados e apoiados, com o intuito de se sentirem reforçados e buscarem conhecimentos. No entanto, é preciso manter o bem-estar emocional e mental.

O ajuste dos jovens passará então também pelo apoio dos pais a manter saudáveis e conectados socialmente. Neste momento, será também muito importante para o ajuste os apoios educacional, de saúde, de assistência social e apoio ao exercício da cidadania. Neste momento de grande desafio do desenvolvimento do ser humano e de grande exigência em termos da planificação, do raciocínio e da flexibilidade, a família deve desempenhar um papel fundamental na regulação física, emocional e comportamental para atingir a superação e de problemas de saúde mental dos jovens e manter a competência, o relacionamento, a autonomia, o equilíbrio e o ajuste psicológico.

Em síntese, podemos dizer que, para que os jovens se sintam ajustados, psicologicamente, perante este novo contexto terão, em primeiro lugar, de desenvolver as competências emocionais ou inteligência emocional e a auto-estima, ser resiliente e também receber apoio da família, dos amigos, da escola e praticar a religiosidade. Existem vários comportamentos que indicam o ajuste ou desajuste psicológico nos jovens. É preciso lembrar que a ameaça de contágio pode distorcer as nossas respostas psicológicas às interações comuns, levando-nos a comportar de maneiras inesperadas.

 

Tito Olavo Rocha Gonçalves,

Professor Universitário