ANÁLISE POLÍTICA | Os Nós da Corda da Política na Capital do País

ANÁLISE POLÍTICA | Os Nós da Corda da Política na Capital do País

Alberto Mello, mais conhecido por Beta, antigo vereador da Câmara Municipal da Praia e ex-presidente da Assembleia Municipal do mesmo Município, está disponível para ajudar o seu partido a sair do buraco em que entrou, nestas autárquicas de 2020. É que o MpD, que liderou a capital nos últimos 12 anos, regressa ao lugar de segundo maior partido na Praia, podendo custar-lhe uma certa fatura nas eleições legislativas e no apoio ao seu candidato presidencial para as eleições de 2021, uma vez que, embora sendo poderes distintos, os autarcas fazem campanhas políticas e eleitorais para os seus partidos políticos e emprestam o seu capital político aos partidos a que pertencem.

 

Beta, que vinha acompanhando Ulisses Correia e Silva na Câmara Municipal da Praia, mostrou-se disponível, em 2016, para seguir as suas pegadas na capital do país. A seu favor, tinha uma grande aceitação, não só no seio do eleitorado do MpD, como no meio da população praiense de uma forma geral, na medida em que era visto como um indivíduo popular e de relações fáceis. Ganhou a sondagem interna do partido para as autárquicas de 2016, mas a cúpula do MpD não lhe estendeu a mão. Beta ficou em terra. Acabou por ir para a Assembleia Municipal da Praia, mas saiu ‘ileso’ nas autárquicas de 2020 porque não acompanhou Óscar Santos nessas andanças dos últimos meses, que resultaram num desastre eleitoral para o MpD na capital do arquipélago, surpreendendo a tudo e todos. O próprio MpD, através das suas direções nacionais, informou à sociedade que entraria numa profunda análise interna, mas, passado um mês, não se vê fumo branco a sair dessa prolongada reflexão. Só que o tempo que sobra para as legislativas já não é muito e, neste momento, se o partido da democracia não quiser apanhar um segundo tabefe do partido da independência, deve trabalhar a reflexão e a ação ao mesmo tempo.

Perdendo a Cidade da Praia, Ulisses Correia e Silva e todo o sistema do MpD no país viram-se perante um grande problema: como serão as eleições legislativas de 2021? Na verdade, ainda não há respostas para esta questão. Porém, o MpD tarda em dar um sinal aos seus eleitores, quando se aproxima a passos largos das legislativas. Os seus militantes queixam-se como alguém que se sente com uma corda atada ao pescoço.

A queda do MpD na Câmara Municipal da Praia alertou os seus dirigentes para a necessidade de reforçar o partido na capital do país. Numa breve análise feita no quadro de uma reunião das estruturas nacionais do partido, decidiu-se pela aceleração das eleições para a Concelhia da Praia, uma vez que, por razões de viagem, o partido está há mais de um ano sem coordenador na Praia. Alguns procuram deitar mão a este facto para explicarem a derrota na Praia. Porém, o problema não passa só pelo facto de o MpD não ter uma Concelhia funcional na Praia. Em abono da verdade, há muitos Concelhos em que as Concelhias do MpD simplesmente não funcionam. Há outros ‘Coordenadores Concelheiros’ que mais atrapalham do que outra coisa. Há situações, ainda, em que os ‘Concelheiros’ das Concelhias funcionam à base dos seus próprios interesses, procurando ser jogadores e árbitros, apitando e jogando, provocando mais estragos do que se o partido estivesse sem Concelhias instaladas. Tudo isso, acontecendo mesmo ‘na barba’ da Direção Nacional do Partido e das Comissão Política Nacional, que fecham os olhos perante a situação.

Com a perda de espaço do MpD na Câmara Municipal da Praia e a abertura do ‘concurso interno’ para uma nova Concelhia, Beta ressurge na política nacional. Estaria à espera da sua oportunidade que, talvez, tenha chegado. Talvez. Primeiro, porque Beta ainda não sabe se vai ganhar a corrida à Concelhia do seu partido. Segundo, porque, Beta não sabe que mandato o Francisco Carvalho vai fazer na Praia. Nesta corrida à Concelhia da Capital, Beta não está apenas a concorrer para assegurar e levantar a moral do partido na Praia, como também está a lançar-se para (as eleições legislativas de 2021?) as autárquicas de 2024 na Praia. Pode ser as duas coisas. Dar um passo nas legislativas de 2021, já que, como coordenador Concelhio da Praia, estará em vantagem em relação a outros pretendentes para ser deputado nacional pelo círculo eleitoral de Santiago Sul; como também, estará a dar um passo em frente no sentido de assegurar a sua possível candidatura autárquica em 2024.

Beta concorrer às autárquicas de 2024 irá depender de muita coisa. Essencialmente, daquilo que for a governação municipal de Francisco Carvalho durante este mandato que começou este fim de semana. Desde logo, se por via do Concelhio da Praia Beta conseguir chegar a deputado em 2021, vai ler o cenário várias vezes antes de se lançar numa aventura autárquica em 2024, se Francisco Carvalho fizer um bom mandato e lhe minar o terreno.

Francisco Carvalho, claramente, não entrou para a Câmara Municipal da Praia para fazer um único mandato. Mesmo que o PAICV ganhe as eleições legislativas de 2021 – nada está completamente definido neste aspeto. Ainda não há um vencedor -, é muito improvável que Francisco Carvalho venha a subir para o governo nos próximos tempos. O PAICV, que levou 12 anos a ‘ver navios’ na Praia, não iria pôr a principal Câmara Municipal do país em risco. Irá trabalhar, com certeza, para apresentar um Francisco Carvalho mais forte, com mais enraizamento e melhor engajamento com a população, em 2024. Com certeza, já estudou muito bem as falhas do MpD na Praia. Irá trabalhar sobre esses pontos mais fracos: terrenos para habitação social e familiar, Casa para Todos, vendedeiras ambulantes, política social, entre outros. Basicamente, uma política social, que compromete as pessoas com a governação da capital. E isso, sendo feito de forma meticulosa, vai dificultar o regresso do MpD ao poder em 2024, na Cidade da Praia. Por isso, Beta tem que calcular muito bem todas as peças do xadrez antes de se lançar para as autárquicas de 2024. Se perder em 2024, será uma machadada no seu caminho. Se perder em 2024 e 2028, praticamente, vai ver o ‘fim da estrada’ para ele na capital.

Como na Política não há dados adquiridos, o perder e o ganhar poderão estar numa mesma moeda: duas faces. Desta feita, olhemos o outro lado da questão: como as vitórias não são antecipadas, não há nada que garanta, ainda, a reeleição do Francisco Carvalho em 2024. Beta tem o seu público. E falta saber o que o MpD fará do seu público na Praia (e no país, também). Se há uma verdade em relação às autárquicas de 2020 é que, muito da derrota local do MpD em alguns municípios deveu-se ao sistema local do partido, mas muito da derrota do MpD a nível local em alguns municípios deveu-se, também e muito, às estruturas nacionais. Nem vamos falar das escolhas dos candidatos para as eleições autárquicas… das guerras de galos entre os vices de Ulisses Correia e Silva… das lutas internas para marcar territórios… ou das montagens de alianças para as presidenciais de 2021. Apenas iremos lembrar que o MpD teve quatro anos para apagar muitos dos fogos que andaram a ‘pipocar’ pelos Municípios e não conseguiu fazê-lo. Houve muitos lugares em que o partido foi de uma forma atabalhoada para as eleições autárquicas, com diferentes estruturas locais num clima de ‘mata-mata’, com falta de confiança entre os ‘players’, com fingimentos entre os seus ativos políticos locais, com pessoas nas campanhas a fazerem ‘figa canhota’ para a equipa que dizem apoiar perder as eleições, com indivíduos nas campanhas apenas para fazerem figuras para poderem parecer de bem face aos dirigentes nacionais e conseguirem assegurar ou continuar a assegurar o ‘seu cantinho na glória’. E é isso que anda a destruir o capital político do MpD. Não vamos aqui lembrar do ‘coro da igreja política’ que, para assegurar os seus lugares ou procurar novos lugares, aplaudem, de forma efusiva, sem mesmo escutar o discurso. Esses senhores do ‘sim senhor’, também, ajudam a derrotar o partido. Quando deviam entrar com pensamento, entram com ‘aplausos irrefletidos’ porque apenas querem assegurar o lugar. E nem pensam que quando não houver partido no poder, não haverá lugar para assegurar. Nesse dia, também deixam de aplaudir. São os primeiros a se queixarem.

Beta, se entrar para a Concelhia da Praia, precisará de restituir o partido junto do eleitorado e dignificar o sentido de pertença ao MpD, para poder sonhar com outros voos. E Francisco Carvalho acabou de arrancar o seu voo. Falta saber, até 2024, quem estará a voar por cima das nuvens.


Jornal Arquipélago / Redação