Cabo Verde e o Indesejado Inquilino

Cabo Verde e o Indesejado Inquilino

A nova realidade internacional instaurada, em decorrência do crescente tráfego transfronteiriço, contribuiu para a proliferação da pandemia num curto espaço de tempo, onde nem mesmo o distanciamento geográfico foi capaz de impedir a sua disseminação, trazendo consigo inúmeras mortes, aumentando consideravelmente a taxa de mortalidade mundial.  

 

 

Perante este novo paradigma transnacional, é possível prever o surgimento de novas configurações globais, que desafiam a ordem internacional vigente. Deste modo, ciente das complexidades da atual sociedade internacional, o papel do Estado passa a ser o de facilitação dos mecanismos capazes de controlarem as interações sociais, incentivando arranjos variados para lidar com esta nova realidade.

Este mais novo indesejado inquilino, silenciosamente, veio mostrar-nos que a geografia que nos separa, a língua que nos diferencia, a cultura que nos caracteriza, as ideologias que nos definem e os recursos que nos classificam, são meras ilusões. Ilusões, pois, a dita nova pandemia mostrou-nos que todos somos iguais e que, sendo semelhantes, todos podemos enfrentar os mesmos obstáculos. Este pode ser um dos ensinamentos que devemos tirar desta problemática: “somos todos iguais”.

Cabo Verde, assim como o resto do mundo, deparou, há algum tempo, com um novo ‘hóspede’, vagueando pelas nossas ilhas, cidades e zonas, entrando nas nossas casas sem ser convidado, trazendo, consigo, muitas complicações, amortecendo os nossos planos, as nossas metas e os projetos de vida. Consequentemente, trouxe impactos no setor económico, podendo ser observáveis, nos dados previstos pelo Ministério das Finanças publicadas em junho de 2020, constando que, “o PIB deverá para o ano reduzir de -6,8%, podendo chegar a -8,5%, um fator alarmante para o cenário macro fiscal, com o défice público a aumentar dos 1,7% do PIB no cenário base, para 11,4% do PIB” .

Nesta perspetiva, as instituições, empresas e pessoas individuais têm a responsabilidade de gerirem e supervisionarem as questões ligadas à segurança pública, cuja finalidade é combater uma maior disseminação do vírus, diminuindo, assim, os contágios.  É desta forma que o isolamento social se tornou num dos meios mais eficazes para evitar um maior alargamento da doença, uma decisão que, individualmente, devemos tomar, mas, analisando a performance dos pequenos grupos na sociedade, a tendência é termos cada vez mais contaminações e é o que temos vindo a constatar.

O vírus da Covid-19 veio acompanhado de consequências nefastas, o que forçou as autoridades cabo-verdianas a criarem mecanismos de adaptação às circunstâncias por este imposto e, por isso, julgou-se necessário a conjugação de esforços para debelar esta problemática. Porquanto, apenas os governos e as corporações públicas e privadas não serão suficientes para erradicarem o vírus provocador da Covid-19 das nossas vidas. Por isso, será necessário haver a colaboração de cada cidadão.

O mais irónico é perceber que a nova geração vive de acordo com os seus preceitos, ignorando a nova realidade em que estamos inseridos, vivendo o hoje intensamente, esquecendo-se de que,  sem os devidos cuidados, os mais vulneráveis sofrem com as inconsequências dos “desajuizados”. A negligência desta geração não se deve à falta de informação, mas de responsabilidade e de consciencialização, culminando com o pensamento de que somente os idosos é que sofrem com esta pandemia, o que não corresponde à verdade, uma vez que estudos já provaram que portadores de problemas de saúde, como a diabetes, a hipertensão, as doenças cardiovasculares e pulmonares, etc., tornam o indivíduo mais vulnerável, independentemente da faixa etária.

Onde será que iremos parar?  Não parece ser complicado “matutar” e compreender que, quanto mais agirmos como se tudo estivesse normal, mais tempo iremos conviver com o vírus, mais serão as dificuldades para os desfavorecidos. Haverá aumento do índice de mortalidade e mais tempo estaremos sujeitos a circular com o rosto coberto e não poder respirar o ar puro. Cabe a cada um de nós pensar e refletir nas nossas ações, protegendo-nos e protegendo o próximo.

 

Andreia Vieira

Finalista do Curso de Licenciatura em Relações Internacionais e Diplomacia