Campanhas Eleitorais e Disseminação da Pandemia em Cabo Verde

Campanhas Eleitorais e Disseminação da Pandemia em Cabo Verde

No passado mês de março de 2020,  foram registados os primeiros casos de Covid-19 no país,originando um sentimento de medo para toda a comunidade cabo-verdiana.  Diante disso, o Presidente da República, depois de ter consultado os líderes parlamentares, instituições religiosas e outros agentes, tomou a decisão de avançar com a medida do Estado de Emergência, a partir das 00h00 do dia 29 de março até ás 24h00 do dia 17 de abril. Medida necessária com vista a dificultar e a tentar eliminar o mais rapidamente possível a disseminação do vírus. Mais tarde, viu-se uma série de prorrogações do estado de emergência, com enfoque em Santiago, onde a situação se tornou alarmante, uma vez que os contágios aumentavam exponencialmente, fugindo do controle das autoridades, que não mediam esforços para evitarem maiores contaminações.

 

Hoje, 7 meses depois do primeiro caso da Covid-19, já foram registados 6210 casos dos quais, 77 resultaram em óbitos. Números extremamente elevados para um país com tão pouca população, o que torna Cabo Verde um dos países com maior taxa de infeção considerando o número de habitantes. Tem-se notado um ‘relaxamento preocupante’, tanto das autoridades como, e principalmente, da população. O medo que no início pairava, agora, poucos vai desvanecendo. Já não há distanciamento, pode ir-se a festas e eventos públicos e, pior de tudo, já há aglomerações, o que é exatamente o contrário das recomendações da OMS, o fator principal de contágio.

Com a conformidade e a comodidade da população cabo-verdiana, faço as seguintes exclamações: O que mudou tão depressa?  Por que motivo as pessoas deixaram de ter medo de estar em tantas aglomerações? O porquê de as autoridades estarem tão despreocupados?  Por que motivo tantas pessoas nos transportes públicos ao mesmo tempo? O porquê dos candidatos às autarquias de todas as ilhas de Cabo Verde terem estado em tantas atividades desnecessárias e com tanta aglomeração?  Deixo estas questões para a reflexão.

Em momentos como este, é que deveríamos pensar no bem-estar da saúde pública. Será que todos já se esqueceram que temos profissionais de saúde que desde a chegada da pandemia se encontram longes dos filhos, maridos, esposas e o resto da família? Por que não esperar ou dar tempo para a realização das “paródias”, um pouco mais, até que a situação tome o rumo certo.

O que me muito preocupou foi ter visto os nossos candidatos foram tendo tamanha irresponsabilidade. Não me parece que seria fatalmente necessário ter tantas pessoas nas passeatas, a fazerem atividades desnecessárias. Digo e repito: talvez o vírus da Covid-19 tenha deixado uma mensagem ou mandado uma carta a declarar que voltaria a contaminar a população depois do dia 25 de outubro. Se for o caso, deveriam declarar publicamente ou enviar-me um e-mail. Assim, não me iria preocupar tanto.

Chegando ao período de campanhas eleitorais, esperava-se pouca intensidade, devido ao contexto atual, precisamente para evitar aglomerações e, assim, o alastramento do vírus. Mas, a população e os partidos políticos mostraram uma total irresponsabilidade, juntando-se em grupos numerosos, em contactos porta-a-porta pelos concelhos e na realização de comícios, que causaram notáveis ajuntamentos das suas massas de apoiantes. Com o início das campanhas eleitorais, estranhamente, o país conheceu um pico de casos diários, praticamente dobrando o número de casos registados um mês antes.

Há alguma relação? Pode serque sim. Para um país que ainda não viu nenhuma melhoria e maior eficácia nas medidas implementadas, registando-se exatamente o oposto daquilo que fora almejado, não seria mais seguro e mais racional realizar as atividades eleitorais através das plataformas digitais e a realização de pequenas passeatas, fomentando a população a não se deslocar?

Atitudes que nos levam a pensar – o que importa mais para os nossos candidatos: lutar pelo bem-estar social, incentivando as pessoas a seguirem à risca as medidas de segurança ou a luta cega e negligente pelo poder a qualquer custo? Estes, a não respeitarem as normas publicadas pela CNE, não se mostraram capacitados para ocupar os devidos cargos, pois, antes de pensarem em apresentar as suas propostas e de fazerem campanhas de tal porte em todas as comunidades, deveriam pensar no bem-estar da saúde da população das ditas comunidades. O que fica na retina é que estão mais focados em ganhar a luta pelo poder do que lutar para o bem comum, tarefa esta de todos nós. Porém, sendo eles candidatos a posições de relevância social, pressupunha-se que fossem os primeiros a darem o exemplo.


Andreia Vieira

Finalista do Curso de Relações Internacionais e Diplomacia