CARTA À CHUVA | “O Que Fizemos para Merecer a tua Fúria?”

CARTA À CHUVA | “O Que Fizemos para Merecer a tua Fúria?”

Minha querida chuva,

Espero que esta carta te encontre em perfeitas condições de saúde, junto dos teus familiares, relâmpago, trovoada, vento, etc, para que no próximo ano possas voltar a visitar-nos. 

 

Ainda aproveito para dizer-te que já sinto saudades tuas, das nossas brincadeiras de corridas pelas ruas apenas de calçinhas e, principalmente, da abundância de água que nos deixaste aqui em casa.

Depois de quatro anos, “falaste mantenha”. Visitaste a nossa humilde casa, bateste à porta sem um aviso prévio no meio da noite, abrimos-te a porta e entraste. Logo, ao ver-te, o meu coração saltou de alegria e encheu-se de esperanças, abracei-te por um momento e convidei-te para a minha cama. Sim, depois de muito tempo sem te ver, não consegui zangar-me contigo, mas mesmo que quisesse não conseguiria, pois o teu jeito, a tua forma de me abraçar, consome-me e faz-me aceitar todos os teus termos. Por isso, as coisas são sempre da tua maneira, no teu tempo e do jeito.

Assim, caminhaste comigo ao longo do corredor sem dizer uma única palavra, no meio dos pensamentos, não parava de questionar a razão porque demoraste tanto tempo para vires visitar-nos. Mas, com medo de estragar o momento, não consegui abrir a boca. Metemo-nos na cama e fiquei de olhos fechados a sentir o som da tua respiração, o bater do teu coração. Não queria acreditar que, depois de 4 anos consecutivos sem te ver, aqui estavas, comigo outra vez... na cama.

De repente, foste ficando cada vez mais intenso, o teu coração batia cada vez mais forte, a tua respiração ia ficando cada vez mais afogante e vi a nossa humilde casa a desfazer-se, corri para os quartos onde estavam os meus filhos, a água já tinha tomado conta da casa, quis combater tentando salvar o pouco que tinha, mas fui mais fraca, venceste. Chegaste de mansinho e devagarinho fizeste estragos irreparáveis. Levaste casas, carros, pontes, estradas e tiraste-me  tudo. Tiraste a quem não tinha o que tirar, levaste quem não queria ir... o momento mágico tornou-se em pesadelo, pesadelo que parece não ter fim. Ficaste pouco tempo e em tão pouco tempo deixaste marcas que para sempre irão ficar entranhada no nosso ser. Tiraste-nos o chão…

Levaste um pedaço de nós. Pior é que, apesar de termos a certeza de que o que já foi nunca mais regressa e saber que foste tu que o levaste, não paro de pensar no momento em que vou voltar a te encontrar.

O meio rural grita de alegria e esperanças e a cidade chora danos e pede socorro e espera contar com a solidariedade de todos para se erguer. A capital do país viu-se empanturrada de lama até ao pescoço. Enquanto isso, no meio rural, um manto verde cobre as paisagens, fazendo 'jus' ao nome que batizou o nosso arquipélago, Cabo Verde.

A tua ausência foi tão grande que por, algum tempo, as pessoas “deixaram de acreditar na tua volta”. Por isso, muitos trabalharam sem contar com a tua presença. Furiosa, chegaste sem aceitar explicações, derrubaste-os a todos, como mãe que vê o filho em perigo, cortando-o de raiz, defendendo no fundo o mal maior.

Desta forma, aproveito para te perguntar o quê que fizemos para merecer a tua fúria?

Acredita que, apesar de tudo, ficamos felizes por saber que causaste também bem a muita gente, enchendo as pessoas de alegria, garantindo a comida à mesa, alimentos aos animais, entre outros benefícios para o meio ambiente e, por conseguinte, para todos nós.

A tua visita causou sentimentos dúbios, pois agricultores regozijam-se de alegria pela tua visita ao verem os seus campos verdes, milho a brotar em algumas ilhas e o pasto para os animais. Na cidade, só deixaste estragos, deixando mesmo assim um sentimento inexplicável… Entre choros e alegrias, assistimos à tua partida, na esperança de que irás voltar no próximo ano e na certeza de que iremos nos erguer.

Que no próximo ano seja apenas alegria

 

Teresa Ramos Correia | Professora e investigadora | Colunista