CRÓNICA | Autárquicas 2020: A Escolha das Edilidades em Tempos de Pandemia

CRÓNICA | Autárquicas 2020: A Escolha das Edilidades em Tempos de Pandemia

No próximo dia 25 de outubro de 2020, uma franja da população cabo-verdiana  (a que se encontra em 'idade eleitoral' e que estiver recenseada) irá comparecer às urnas que a Comissão Nacional das Eleições (CNE) instalará nos seus municípios para exercer a sua cidadania. Num intervalo de tempo de quatro em quatro anos são realizadas as eleições autárquicas em Cabo Verde, em que os munícipes de cada município escolhem, de entre os candidatos, o grupo que assumirá a liderança da Câmara Municipal do seu concelho.

Desta feita, torna-se mais fácil fazer o acompanhamento e a fiscalização das políticas públicas nas suas localidades, corroborando, assim, para o desenvolvimento local.

Desde as eleições de 2016, já era sabido que 2020 seria mais um ano eleitoral. Foram quatro anos de avaliação dos trabalhos feitos e não feitos pelos candidatos que foram escolhidos nas últimas eleições. Este será o ano de voltar a fazer novas escolhas, sendo sábias ou não, e o dia 25 de outubro será o de 'julgamento'. Aí, os eleitores tornam-se juízes e as urnas serão os 'tribunais'. A população cabo-verdiana irá pôr, a público, o seu parecer sobre quem irá continuar a assumir o estatuto de Presidente de Câmara Municipal e quem irá assumir esse estatuto pela primeira vez.

Mas a novidade é que ninguém esperava que este ano, Cabo Verde e o mundo iria deparar com a crise resultante da pandemia do novo coronavirus, que trouxe consigo grandes impactos nos diversos setores e camadas sociais, amortecendo o avanço do mundo por alguns meses. Assim, esta pandemia fez com que os Presidentes das Câmaras Municipais de cada concelho mudassem de prioridades, criando novas estratégias e meios, num curto espaço de tempo, para garantirem o distanciamento social entre a população, evitando, assim, o maior alastramento das contaminações e salvaguardando a saúde pública.

Com tudo isso, 2020 está a ser um ano bastante desafiante, de forma que tem  colocado à prova as capacidades dos dirigentes políticos, na sua luta contínua para manter o país a seguir o rumo do desenvolvimento, ao mesmo tempo, testar a capacidade das áreas projetadas para a manutenção da segurança pessoal e coletiva, como todos os campos de atuação do indivíduo na sociedade, principalmente acapacidade das economias continuarem a produzir os bens essenciais de consumo para as populações.

Diferentemente das eleições e campanhas eleitorais de 2016, este ano, tudo seguirá um rumo diferente, em decorrência da pandemia. Como afirmou Cristina Leite, porta voz da Comissão Nacional de Eleições, no corrente ano, “os comícios, grande passeatas e arruadas não são eventos recomendados pelas autoridades sanitárias, porque põem em risco a saúde pública”. E acrescentou: “essas limitações vão constituir um grande desafio para os partidos e candidatos que devem considerar a realização de campanhas virtuais, recorrendo a aplicativos, plataformas digitais, rádios comunitárias, para além de outras formas remotas, para fazerem a comunicação das respetivas plataformas”. Desta feita, as plataformas digitais e televisivas constituirão oportunidades acrescidas na montagem das propagandas eleitorais, proporcionando uma maior visibilidade aos concorrentes.

Todas essas recomendações surgiram devido às normas estabelecidas pela mais nova 'entidade' residente em Cabo Verde e que possui uma característica desconhecida. É essa mesma 'entidade' que teve a audácia de ditar novas formas de se estar em sociedade, como também, os novos modos de comportamento para os cidadãos cabo-verdianos, que, desde sempre, nos momentos decorrentes das campanhas, tornam as ruas mais movimentadas. O historial das eleições neste país é a grande maioria da população sair às ruas para ir dar cara aos seus projectos e propostas. Os eleitores, na maioria das vezes, também é nas ruas que têm tido contacto com as linhas-mestras dos projectos políticos que os candidatos levam nas suas campanhas. Porém, este ano, nas ruas, correm mais perigos do que tem vindo a acontecer.

As autoridades sanitárias, em cooperação com a CNE, como forma de controlarem os efeitos pandémicos na sociedade, estabeleceram o isolamento social, para evitar o alastramento da contaminação, o que não é compatível com a tradicional prática das campanhas eleitorais no país, principalmente em eleições autárquicas, que mobilizam o maior número de candidatos no universo das tipologias de eleições operantes em Cabo Verde.

Este ano em específico, toda a população como também os candidatos, irão 'dançar' conforme a música do 'Dj Corona'. Pois, os candidatos não terão a oportunidade de saírem às ruas como sempre fizeram e, pela primeira em Cabo Verde, as redes sociais irão substituir as ruas, no processo de campanhas e dos grandes comícios. Mas, a pergunta que se coloca é: que impactos terá a não apresentação de propostas nos comícios por parte dos candidatos, nas escolhas e votações dos eleitores? Será que o contexto pandémico em que nos encontramos não terá uma repercussão negativa na adesão às urnas e, por conseguinte, um elevado nível de abstenção? Será que não é tempo de se criar comissões legais e técnicas para realizar o voto electrónico?

Para encontrar as respostas às questões acima levantadas, teremos que aguardar que o tempo as traga, esperando pelo dia das eleições.

 

Andreia S. Vieira* | Colunista | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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*Finalista de Licenciatura em Relações Internacionais e Diplomacia