Donald Trump Foi Derrotado pelo Novo Coronavírus

Donald Trump Foi Derrotado pelo Novo Coronavírus

As eleições são uma máquina de complexas variáveis. Muito raramente, há um único factor que justifica uma derrota eleitoral. Há, quase sempre, um punhado deles, que acabam por complementar as forças na construção das derrotas (ou destruição das vitórias, conforme for o entendimento). Neste particular, a América não é uma ilha. A situação americana não é isolada. Portanto, os Estados Unidos da América também contam com uma multiplicidade de factores a ajudarem na definição do espectro eleitoral.

 

Donald Trump chegou à presidência americana relativamente há pouco tempo. Um verdadeiro fenómeno, que surge dentro da área política dos republicanos. George W. Bush não o foi. Conseguiu ganhar as eleições, mas não entrou pela porta em que entram os ´fenómenos’ políticos. Para falar ainda de fenómenos, na área política dos democratas, Barack Obama o foi. Mas, Joe Biden nem por isso. Biden é um presidente que foi construído por uma conjuntura. Uma conjuntura que desconstruiu, muito precoce, o fenómeno que Donald Trump é. Na verdade, Trump foi desconstruído, mas o fenómeno lá ficou. Até na forma como perdeu as eleições, comportou-se como um fenómeno. Não aceitou a derrota. Declarou a sua vitória sem que os votos tenham sido contados. Proliferou os processos nos tribunais. Mandou parar a contagem dos votos. E ainda teve tempo para ver a Greta Thunberg a lhe gozar com a cara. Tudo isso só poderá ter uma classificação: fenomenal. Portanto, é caso para dizer que, mesmo que o fenómeno saia de Trump, Trump não sai do fenomenal. É o homem dos palcos. Nunca saiu do palco. Não soube gerir o palco. Não percebeu que, no palco, há momentos de representação e há momentos em que a coisa é séria. Levou tudo para o universo da representação. E nem vou falar do muro da fronteira com o México, que ele prometeu construir para que o mexicanos e o resto dos latinos não atravessarem as fronteiras, sendo que seria o próprio México a pagar o Muro... o tal Muro de Trump... para ajudar o mundo a recuperar a memória do Muro de Berlim, derrubado no crepúsculo do século XX. Portanto, Trump levou a sério muitas coisas que se pensava, inicialmente, que ele as dizia a brincar. Mas, coisas sérias. Na verdade, passou muito tempo a representar.

Nem tudo foi mau na Administração Trump. A economia respondeu bem. Baixas no desemprego. Melhoria crescente do desempenho económico do país. Americanos alegres com uma política de um certo regresso ao ‘umbiguismo americano’. E outras coisas mais.

Até dezembro de 2019, Donald Trump tinha as eleições ganhas. Em Janeiro de 2020, as eleições continuavam ganhas. Em Fevereiro também. E, daí para frente, o vírus corona começou a permear a América. Até ali, as eleições estavam ganhas por Donald Trump. Não se podia,  à época, prever a sua queda. E ali e acolá, ia entretendo a população americana com umas galhardetes com a Coreia Norte... ora com a China... uns safanões à Europa... um pescar de olhos, num clima amor-ódio, à Rússia. E a vida lhe ia de feição.

Com a deflagração do coronavírus nos Estados Unidos da América, Donald Trump falhou, de forma miserável, nas respostas. Primeiro, ignorou o coronavírus. Depois, gozou com o próprio vírus, dizendo que é um vírus fraco, que se assemelhava a uma gripe e que não era para ser levado a sério. Seguidamente, foi incentavando as pessoas a não aceitarem o ‘lockdown’ nos vários Estados dos EUA porque era preciso salvar a economia... até que se perdeu o controlo da pandemia... até que começou a haver mortes em massa... até que abriram as valas comuns... até que as mortes chegaram aos milhões; empregos destruídos; uma boa parte dos americanos desprotegidos dos serviços de saúde; e a decorrdada. Ali, o coronavírus fez ‘morrer’ o herói que havia em Trump. A confiança já não era a mesma dos primeiros tempos do mandato e, praticamente, “a montanha pariu um rato”. A credibilidade de Donald Trump não resistiu. Portanto, os resultados eleitorais hoje anunciados não passam de uma “crónica de uma derrota anunciada”. Seria muito difícil que Donald Trump pudesse se reeleger, logo agora que os Estados Unidos já passaram a fasquia de dois milhões de mortos por COVID-19 e o vírus vai ‘solto’ por aí. Portanto, Donald Trump provou do seu próprio veneno. Não diria que foi traído pelo excesso de confiança. É mais do que isso: foi traído pelo excesso de representação na construção da solução de vida para os americanos. Enquanto o vírus ganhava terreno, Donald Trump perdia terreno. E, no meio disso tudo, surgiu Joe Biden... com a cereja numa mão e um bolo noutra.

 

Silvino Lopes Évora | Analista Político | Professor Universitário