Juventude, Libertinagem e Covid-19

Juventude, Libertinagem e Covid-19

A pandemia da Covid-19 veio para alterar tudo o que gira à nossa volta: do mais simples gesto de carinho ao mais complexo nível da interação humana.

Desde o surgimento e a notificação dos primeiros casos na China, o mundo inteiro sentiu-se ameaçado e, naquela altura, tão pouco se sabia aquilo que nos esperava nos meses que se seguiam. Rapidamente o vírus começou a circular; cruzou mares, atravessou o atlântico e em pouco tempo o mundo todo lutava contra o inimigo silencioso que é o novo coronavírus.

Várias foram as medidas adotadas para, inicialmente, tentar fazer face ao covid-19, já que tão pouco se sabia acerca deste. Nunca antes estas gerações de viventes sentiram tanta necessidade de higienizar as mãos e tudo aquilo em que se toca. Guardar o distanciamento social passou a ser a expressão de ordem. Se, antes, abraçar, beijar e tocar eram sinais de demonstração de carinho, nos tempos que correm, esses atos se transformam em autêntico sacrilégio. Um sorriso com os olhos ou o cumprimento com o antebraço já está de bom tamanho.

O vírus da SARS-COV 2 não escolhe raça, sexo, faixa etária ou condição social. Todas as pessoas estão sujeitas a contrair esta enfermidade. No entanto, pessoas com mais de 60 anos ou aquelas que tem outras morbidades fazem parte do grupo de risco, daí ter-se sempre apelado a mais responsabilidades por parte de todos, para proteger este grupo mais vulnerável. A nível mundial, as mortes provocadas pelo novo coronavírus não param de aumentar, embora numas e noutras paragens já se tenha alguma trégua.

As estatísticas apontam para uma boa percentagem de casos de covid-19 na população jovem. Os últimos dados apontavam que, a nível mundial, jovens entre os 20 e os 37 anos são os mais afetados pelo coronavírus. Em Cabo Verde, o cenário não é diferente. A camada juvenil representa a maior percentagem dos casos, até ao momento.

Se pararmos para pensar, não será difícil compreender a realidade das coisas. A juventude cabo-verdiana tomou como verdade que a covid-19 é “ doença dos velhos”, isto é, que é letal somente para as pessoas mais idosas, descendo para a negativa o nível de solidariedade e cuidado que deveria haver para com estas pessoas da terceira idade.

Durante todo o período de Estado de Emergência decretado no país, desde os finais do mês de março, sendo sucessivamente renovado até finais de maio, os jovens não pararam as suas atividades e diversão. Às escondidas das autoridades fez-se festas, convívios e outras ações que promoviam o ajuntamento social.

Com os espaços de lazer totalmente fechados, a juventude encontrou outros meios de diversão, quase sempre com pouca cautela de prevenção ao coronavírus. Depois do levantamento do Estado de Emergência, já se esperava que o número de casos fosse disparar. O sentimento de cansaço por estar tanto tempo em casa fez com que todos saíssem afobados e com enorme vontade de retomar à vida normal. A camada juvenil continuou com as atividades de lazer, sem responsabilidade, sem cautela e sem temer pela vida dos pais ou dos avós e outras pessoas.

A solidariedade passa longe, quando a juventude diz que quer viver e que o vírus não existe. Situações do tipo, ouvem-se constantemente, como se as ações de cada um não pusessem em causa a estabilidade de todos.

As pessoas ainda não perceberam que esta é uma luta que só será vencida se todos fizerem a sua parte. As ações de cada um vai refletir sobre a maioria. As autoridades já alertaram várias vezes para a necessidade de se cumprir a regra do distanciamento social, mas, se calhar, esta é das medidas mais difíceis de se respeitar. Mas, isto explica-se muito pela questão cultural. É do nosso ADN tocar para cumprimentar, dar os sentimentos, visitar um ao outro, comemorar juntos. Contudo, um esforço a mais deve ser feito, porque, senão, tão cedo não retomaremos a normalidade.

Situações do dia-a-dia põem a nu o pouco caso que a juventude tem feito deste vírus. Até ao momento, já ultrapassamos os cinquenta mortes pela covid-19 mas, mesmo assim, o sentido de civismo e responsabilidade ainda cantam baixo no seio juvenil. Antes de tudo, é necessário uma mudança de consciência e o reforço na educação. A juventude precisa ser educada para ser responsável, solidária e com bom sentido de cidadania. Sim, somos livres para fazer o que quisermos, porém, já diziam, liberdade sem responsabilidade é libertinagem. O livre arbítrio que nós temos deve ser usado para o bem, com bom senso, visando proteger a liberdade do outro.

Suponhamos que covid-19 fosse um vírus altamente letal para a camada jovem. Será que o comportamento dos jovens seria o mesmo? Estaríamos a fazer festa da chuva em plena pandemia, mesmo estando cientes de que a maior parte dos casos é assintomático e, portanto, não está estampado no rosto de ninguém quem está ou não infetado? Estaríamos em festas e convívios completamente dados ao “não me importo”? Quanto pesa a vida dos nossos idosos, na balança? Estas são as perguntas sobre as quais cada jovem está convidado a refletir.

Ainda que mais medidas severas sejam tomadas, mais autoridades e forças de segurança ajam, se não houver a colaboração das pessoas, sobretudo jovens, de nada valerá a nossa luta contra o inimigo oculto. Não se consegue colocar um polícia atrás de cada cidadão para fazer cumprir as regras estabelecidas. Assim sendo, o que deve haver é uma mudança de mentalidade e tomada de consciência das pessoas; é cada um fazer a sua autovigilância e entender que cada ato irresponsável põe em causa a segurança de todos à sua volta, inclusive, dos seus mais velhos.

Dentro de algumas semanas estaremos a iniciar o novo ano letivo, cheios de dúvidas e incertezas. Acredito que a preocupação maior deveria ser sensibilizar e apelar ao bom senso e a uma maior responsabilidade por parte da camada juvenil nesta luta. Perceber que o momento em que vivemos não é de festa e nem de convívios.

A abertura das praias de mar foi um tiro no pé, visto que o que se quer neste momento é que o número de casos diminua. Primeiro, ninguém vai para o mar equipado de máscara; depois, o ajuntamento social ali é inevitável, dado ao pequenez das nossas praias, sobretudo na capital.

Se, por um lado, temos uma juventude irresponsável e egoísta, por outro, temos autoridades com medidas pouco assertivas que deixam margens para dúvidas de que se realmente se quer que o vírus acabe aqui em Cabo Verde. Se calhar já saimos da fase do coranavírus e passamos para a fase do “coronabusiness”. Enfim, as palavras e as ações não têm estado em harmonia.

Atravessamos tempos difíceis, de crise, privações e sacrifícios e todos contamos que dias melhores virão. Os cientistas todos numa corrida contra o tempo para encontrar a vacina. Enquanto não temos a cura, cada um luta como pode. Munidos de máscara, alcool gel, distanciamento social e uma boa dose de responsabilidade e civismo, vamos à luta, para vencer. Se assim não for, nem duas mil e vinte (2020) medidas surtirão efeito.

 

Vadimila Borges