No Princípio, Era o Vírus...

No Princípio, Era o Vírus...

Num momento em que o mundo passa por uma guerra invisível, as pessoas, praticamente, deixaram enfrentar o vírus e foram ao terreno, em massa, fazer campanhas, com vista a vencer as eleições. O não uso das máscaras e a falta de distanciamento social foram alguns pecados cometidos durante as campanhas eleitorais. Até parecia que o vírus nunca esteve por estas dez ilhas. Porém, depois do término das eleições 2020, o uso das máscaras tornou-se obrigatório e o incumprimento deste é traduzido numa multa que varia entre os 1.500 escudos a 15.000 escudos. Há uma questão sonante: o vírus desapareceu durante os quinze dias das campanhas eleitorais? Logo depois do término das eleições, eis que o vírus voltou ao terreno para fazer a sua campanha. Isto parece um filme... destes produzidos aí nos Estados Unidos. Na Índia, quiça! Ou mesmo, aqui na nossa África, na Nigéria.

Cabo Verde registou os primeiros casos de infeção por COVID-19 no mês de Março. Os casos começaram a fugir do controlo das autoridades e o Presidente da República, juntou-se aos outros líderes, para tomar uma decisão central na política de combate à doença, que é decretar o Estado de Emergência. Foram decretados três Estados de Emergência, sendo que o primeiro foi para todo o país, o segundo apenas para as ilhas com mais casos de infecção (no caso, Santiago, Boa Vista e São Vicente) e o último para Santiago e Boa Vista.

Sete meses depois do aparecimento do vírus no país, veio a campanha eleitoral. À primeira, o discurso e a promessa dos líderes dos partidos e das candidaturas eram de colaborar e cumprir com as medidas sanitárias, conducentes à não propagação do vírus. Mas, o que se notou durante os quinze dias da campanha eleitoral veio contrariar aquilo que foi o discurso e as promessas dos líderes das campanhas eleitorais 2020.

O distanciamento social e o não uso das máscaras faciais foram sintomáticos durante as campanhas eleitorais. Parecia até que o vírus nunca esteve nestas dez ilhas do arquipélago. Perante tantas adversidades e incumprimento das regras, para o próprio bem do país, faço as seguintes interrogações, para refletirem: O vírus desapareceu durante o período das campanhas eleitorais? Porque é que as autoridades andavam a um ritmo tão despreocupados? No momento em que o mundo  passa por uma guerra invisível, as pessoas já não pareciam querer vencer esta guerra. Queriam, sim, vencer as eleições e pronto... ponto final, parágrafo.

Porquê implementar o uso obrigatório das máscaras faciais só depois das campanhas eleitorais?

No início do surgimento do vírus, o uso das máscaras suscitava muitas dúvidas.  Uns diziam que só deviam utilizar as máscaras: os profissionais da saúde que davam assistência direta aos infetados da COVID-19 e os que estavam infetados. Outros ainda diziam que o uso das máscaras aumentava os casos da COVID-19.

Será de se esperar que com tantas aglomerações e incumprimento das regras que houve durante as campanhas eleitorais, o arquipélago passa a atingir o pico de casos diários. É preciso mais respeito pelas pessoas. É preciso que se preocupe com o bem de todos porque a saúde é o bem mais precioso de um ser. E todos devem lutar para que a sua própria saúde se mantenha saudável.

Até hoje, 5 de Novembro de 2020, o país passa a contabilizar 736 casos ativos, 8220 casos recuperados, 95 óbitos e 2 transferidos, totalizando  9053 casos positivos acumulados. Hoje, 5 de Novembro, o uso das máscaras tornou-se algo imprescindível, pois quem não usar as máscaras, sobretudo nos espaços públicos, será acoimado. A multa varia entre os 1.500 escudos a 15.000 escudos. Mas, durante a campanha não havia multas. O que era necessário era gente alegre para fazer a campanha tocar. Seguir a marcha. Enfrentar os adversários. E ganhar. Depois disso, é o que sempre acontece: uma coisa são as eleições, outra coisa é depois das eleições. E assim vamos. Com dois pesos e duas medidas.

 

Patrícia Gonçalves Varela | Jornalista e Colunista | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.