O Sentido da Universidade e um País em Busca da Academia

O Sentido da Universidade e um País em Busca da Academia

Nos últimos tempos, tenho acompanhado o caminho do Ensino Superior em Cabo Verde e, particularmente, as artérias percorridas pela Universidade no país, tendo mastigado, no silêncio do pensamento, algumas análises, que, ao que me mostram, existem nuances e tons de cinza, que precisam de ser aclaradas e madrugadas que se prolongam, que insistem e que não deixam os primeiros raios do sol fazer nascer o dia. Estas reflexões têm-me levado ao sentido da Universidade num país-Ilhéu como o nosso, à utilidade da Universidade e ao seu papel na promoção de uma inversão de caminhos, quando a sociedade trilha um percurso desordenado e desorbitado. Qualquer corpo que desalinha da sua órbita de circulação precisa sempre de uma recentragem e é preciso uma força que ponha as coisas sobre a cariz.

 

A sociedade é um corpo vivo que está em constante movimento e, em função de um conjunto de fatores, ela poderá desorbitar. Quando isso acontece, é preciso que seja puxada, de novo, para o seu domínio circulatório, com vista a caminhar direito, provocando harmonia e sentido. A Universidade lhe confere essa força motriz, com o conhecimento, com o senso crítico, com o pensamento divergente, com a postulação de ideias plurais e com a definição de novas centralidades e novas formulações cognitivas. Porém, para que isso aconteça, é preciso que a Universidade esteja a funcionar na sua órbita. Se caminha desorbitada, não tem como resgatar o outro corpo desorbitado, quando a sociedade assim se encontra. Desta feita, não podemos deixar de olhar e de questionar o sentido da Universidade no meio social cabo-verdiano, olhando para aquilo que a Universidade fornece à sociedade, para a representação social da Universidade em Cabo Verde e, muito importante, para a representação profissional da Universidade no País. É que, em boa verdade, as cifras do emprego e do desemprego se explicam por um corolário de fatores – entre os quais, as políticas públicas, o crescimento económico, a qualidade da formação profissional, o espírito combativo dos jovens rumo a uma realização profissional, etc. –, sendo que a representação social e profissional da Universidade conta, sobremaneira, para isso. As perguntas são muitas e, algumas delas, farei questão de as desvelar numa sequência de artigos de reflexão que prometo trazer, nos próximos tempos, com vista a debater o lugar da Universidade no contexto cabo-verdiano: que jovens é que chegam à Universidade? Que transformação a Universidade provoca nesses jovens? Que quadros são formados? Que habilidade técnica e profissional eles desenvolvem? Que competência prática a Universidade produz? Que senso ético é desenvolvido nos Universitários? E, em última linha, que ser humano é edificado nas estruturas da Universidade? Tantas perguntas para um mar de conjecturações em termos de formulação de respostas.

Olhando para a Universidade em Cabo Verde, nos últimos tempos, vejo-a, muitas vezes, desenraizada do seu ‘métier’, cumprindo apenas uma função de facilitadora do conhecimento produzido aqui e acolá, nos confins do mundo, caminhando fora do seu circuito, descompassada até, como um camelo com um ‘babel’ às costas. Baixando às mais fundas convicções do que o sentido da Universidade aporta, é possível notar que existem hiatos entre aquilo que se oferece como Universidade e aquilo que o senso universitário agrega, incorporando a ciência, a travessia entre os territórios do ensino e as práticas profissionais, a abertura à sociedade, a investigação, a comunicação da ciência (em múltiplas plataformas), a comunicação com o seu meio de inserção, a ação sobre esse mesmo meio de inserção, a transformação social, a assessoria à governação central e local e as diretrizes sobre um existir que implique uma comunhão de entendimentos. Tudo isso incorpora o sentido da Universidade, mas, também, tudo isso recai sobre a Universidade pública com mais vigor, porque ela – a Universidade do Estado – é alimentada, mais do que as outras, de forma directa, com o rendimento das famílias deste país, traduzido em impostos. É claro que não é apenas o Estado que coloca o dinheiro na Universidade do Estado. Mas, ele – o Estado – coloca mais dinheiro na Universidade do Estado do que na Universidade que não é do Estado.

É preciso arraigar a Universidade num território de certezas, para que quem, nela, investe – com o dinheiro dos seus impostos, com o dinheiro com que paga as propinas ou através de outros mecanismos de financiamento – a percepcione como um instrumento que está fundada na persecução de caminhos que levem a um destino coletivo, banhado em prosperidade. Isso não compagina com a atitude de deixar que ela caminhe como um objeto apanhado por uma ‘enxurrada’, caminhando de forma atabalhoada, atropelada na sua missão, vergada nos seus propósitos e divergindo, no seu âmago, do mais profundo daquilo que o sentido do académico aporta. É preciso uma transição da ‘escola’ para ‘academia’; ou seja, deve-se aportar um rumo académico à Universidade; fazer com que ela saia do olho do ‘furacão’ das tempestividades de outras ‘freguesias’ e respire conhecimento. Os verdadeiros académicos não podem fugir a este debate e não podem deixar de discutir a urgência de um tempo novo que a Universidade requer, no sentido de ser tão-somente um farol nas noites mais turvas.

Ao longo da sua carreira, a nível mundial, o que sempre fundou o sentido da Universidade é a pluralidade do seu olhar, sobre os diferentes campos científicos, abrangendo territórios de conhecimento com diferentes matizes e solos. Portanto, a Universidade sempre tendeu para a universalidade e este é o fundamento da sua existência, imputando ao conhecimento científico a necessidade de ser válido em qualquer parte do mundo. Portanto, o exercício do método é importante no caminho que a Universidade faz. E ela, a Universidade, tem que ser um espaço de consenso e de divergências, um campo de comunhão e de lutas, um universo de ideias e de pensamentos, um espaço plural que constrói as consonâncias nos dissensos, um universo que comporta a esperança e as expetativas de futuro no seio das gerações de hoje e abre perspetivas auspiciosas para as de amanhã. A Universidade não tem que ser um centro de emprego, mas é míster que seja um centro de esperança dos jovens em conseguir emprego, formando quadros preparados para abraçar os mais profundos desafios de uma sociedade em transformação.

Em Cabo Verde, a Universidade, ainda, anda à espreita de um caminho; de um rumo; pretende ser academia. Mas, para isso, é preciso que se lhe projete um destino, que se lhe trace um rumo e que se caminhe… irremediavelmente na direção da ciência… e longe das questiúnculas mais ligeiras do quotidiano. Só assim a Universidade será capaz de chegar às razões mais fundas que explicam os eixos sobre os quais a sociedade se move e, mais do que isso, fazer soar a sirene quando a própria sociedade caminha desorbitada. Portanto, é preciso fazer o rio correr da foz para o mar e não o contrário. É que o contrário disso é o que temos feito: a Universidade a não responder, de forma incisiva, os gritos de uma sociedade sedenta de conhecimento, de orientação, de crítica e de uma cultura do pensamento plural, do mérito e da justiça social. Assim, em sede da Universidade, é preciso desenvolver uma cultura académica, centrando o pensamento divergente como esteio da edificação do espírito de vivência universitária.

 

Silvino Lopes Évora

Professor Universitário – Doutorado em Ciências da Comunicação – Especialização em Sociologia da Comunicação e da Informação.