O Último Número de Trump

O Último Número de Trump

Todos temos estado a acompanhar, com mais ou menos proximidade ou distanciamento, o desespero que a pandemia provocada pelo novo coronavírus tem causado, um pouco por todo o mundo, a pessoas individuais, organizações da sociedade, pessoal médico, governantes e, pior ainda, nos doentes. Em Dezembro, o vírus surgiu na China. A Europa não tomou as devidas precauções, o vírus passou para a Europa. A América ignorou o potencial letal do vírus, o coronavírus conquistou o mundo. Excepto países-ilha como Kiribati, Ilhas Marshal, Nauru, Palau, Samoa, Tonga, Tuvalu e Vanatu – todas, nações e territórios oceânicos –, hoje, praticamente, todos os cantos do mundo já experimentaram as incertezas do novo coronavírus.

 

Foi na Itália que souou o alarme. Camiões e camiões militares em fileira, a transportar caixões. O mundo ficou boquiaberto. Itália era o rosto da impotência mundial perante um vírus solto. Porém, o mundo não imaginou que Itália fosse apenas um ensaio da falta de preparos e de condições, a nível global, para enfrentar a pandemia. Na Europa, houve uma ‘outra Itália’: o nome é Espanha. O índice de contágio e de mortalidade também fez soar novamente o alerta. De lá até começar um desentendimento na União Europeia, foi apenas um passo. Holanda não se mostrou muito solidária para com os países mais afetados, quase pedindo uma auditoria à aplicação dos recursos no sul da Europa, mais concretamente, à governação da Itália e da Espanha. Portugal, dependendo de como as coisas corressem, também poderia ser visado. Acordou cedo e começou a falar ‘grosso’. António Costa, primeiro-ministro de Portugal, não gostou daquilo que considerou de ‘insensibilidade’ do primeiro-ministro holandês. No pico do nervo, esteve a um fio de mandar o primeiro-ministro holandês para ir ‘pró crrrrrr....’.

O vírus fez o seu caminho imune às contrariedades no seio da política. No meio disso tudo, deu para Trump travar todas as guerras contra a OMS, a China e meio mundo. O Brasil sempre do seu lado. Enquanto brigavam, Trump e Bolsonaro foram desvalorizando o poder letal do vírus. No caso do Presidente americano, houve até alguma insinuação sobre a incompetência da Europa, particularmente da Itália, na prevenção e no combate ao coronavírus. O mundo foi seguindo os seus passos. O vírus foi avançando. Nos Estados Unidos. E também no Brasil. As mortes foram-se somando. Foram-se triplicando. Foram-se multiplicando. Foram-se policopiando. E os dois países da América, Brasil e Estados Unidos, chegaram à abertura de valas comuns. A economia caiu. As pessoas morreram e Donald Trump, praticamente, perdeu o juízo: foi atirando em todas as direções.

A pandemia do novo coronavírus, praticamente, derrubou a ideia de superpotência. Aquele conceito que imperou muito mais na Administração de Bush do que na de Obama... aquela América que saía, sozinha ou acompanhada do Reino Unido e alguns que iam por arrastamento, e invadia o Afeganistão ou o Iraque, fora de qualquer acordo no seio do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Essa América desapareceu diante da COVID-19. A lei passou a ser a de “ficar em casa”. Ficando em casa, não se ataca ninguém. Até porque, não pode haver tanta força para combater o vírus e, ao mesmo tempo, combater os chamados inimigos externos.

A um mês das eleições, Donald Trump, praticamente, não encontra caminhos para inverter o quadro negativo que as sondagens o evidencia. O volume de mortes nos Estados Unidos da América, praticamente, desmintiram toda a sua retórica do não uso de máscaras, não confinamento, vírus fraco, mais economia, mais economia e mais economia. Os vírus aumentaram-se e policopiaram-se e a realidade passou a ser mais vírus, mais positivos, mais assintomáticos, mais mortes, mais, mais e mais. As sondagens reflectem essa possível avaliação negativa que, do Presidente Trump, os norte-americanos fazem, em termos da capacidade de gerir a crise. A economia caiu. O medo se instalou. Perduraram as incertezas. E o vírus assentou os arraiais.

As eleições têm-se aproximado. Fez-se o debate. Trump perdeu-o contra o candidato democrata. Logo, perante um candidato de quem se dizia pouco vigoroso para os desafios da América. Houve um disparo nas sondagens. Se Donald Trump vinha em terreno negativo, teve ainda a habilidade para recuar uns 7 por cento. Isto, para umas eleições que, vendo-as a partir de hoje, conta-se menos de um mês para a sua realização.

De repente, surge a notícia de que Trump está infectado com o novo coronavírus. Provavelmente, Hollywood virá a fazer um filme sobre isso. Este é último número de Trump, o último 'coelho' que o atual presidente norte-americano procura tirar da cartola antes das eleições... é um pouco na linha da ‘facada’ de Bolsonaro em plena campanha eleitoral. Mas, só que ele precede a campanha.

Se nos reais casos de infeções complexas marcadas pelo novo coronavírus as pessoas levam semanas para se recuperarem, com Trump as coisas acontecem de forma diferente. Tudo tem prazo curto... até porque, quer ele mostrar que o vírus é fraco e facilmente derrubável. A notícia da doença de Donald Trump parece um golpe de marketing bem ensaiado, para cair no âmago de pessoas que não estão disponíveis a fazer grande esforço para refletir: ele é contaminado na quinta-feira, no dia seguinte é internado com dificuldades respiratórias, 24 horas depois a situação se complica e há informações contraditórias (os médicos diziam que ele estava bem, mas uma tal pessoa da sua assessoria que não se conhece e que lança boato de que a situação é muito complexa) e as bolsas mundiais acordam em terreno negativo; no domingo, Trump, de quem, no dia anterior, se dizia que dificilmente viria a entrar em campanhas, sai e dá uma volta para cumprimentar os seus apoiantes, bem posicionados para as câmaras, a encurralar o hospital militar. Ele aproveita e faz propaganda de medicamento que diz estar a usar e, numa espécie de 'crime perfeito', usa máscaras para mostrar que estaria a tomar todas as precauções. Pergunta-se: e o condutor que estava a seu lado, estava protegido? Não sabemos, mas também isso é coisa deles lá das Américas. Passemos em frente: no dia seguinte, antes ontem, Trump tem alta médica. Hoje, provavelmente, já não tem o vírus.

Nota-se que, nos dias que correm, as eleições tornaram-se autênticos palcos de teatralização. Se há realismo nas notícias que envolvem a possível infeção de Donald Trump, há um cem número de encenação que quase que abalroa qualquer verdade. Este é um bom número que Trump faz: por um lado, procura desencadear a comoção nas pessoas e, desta feita, conseguir as suas simpatias e a solidariedade dos americanos; por outro lado, procura validar a sua tese de que o vírus é fraco e que há medicamentos que o combatem com sucesso e eficácia. Tudo bem pensado. Porém, não é necessário continuar a brincar com a vida das pessoas. Cada um faz os números que quiser. Mas, as vidas não são números.

 

 

Silvino Lopes Évora

Professor Universitário