Uma Pandemia Nunca Vem Sozinha

Uma Pandemia Nunca Vem Sozinha

Todas as pandemias carregam crises. E a crise não é uma crise única. São conjuntos de crises que, no extremo, se derramam no cérebro da sociedade e conduzem-na para uma situação de desestabilização. É preciso que ela seja controlada. É preciso não deixar a crise sobrepor-se à estabilidade social. Uma pandemia, também, é isso. Não apenas uma doença. É um conjunto de ‘doenças’ que atingem o coração das sociedades: nos domínios económico, social, político, sanitário, educativo, familiar, etc. Portanto, uma pandemia nunca vem sozinha. Carrega consigo outros males.

 

Propomo-nos, por estes dias, olhar para este ‘terremoto social’ que atingiu o mundo durante, praticamente, todo o ano de 2020. Este ano, praticamente, ficou por conta da pandemia. Este ano, praticamente, ficou por conta do coronavírus. Este ano, praticamente, ficou por conta do SARS-COV-2. Este ano, praticamente, ficou por conta da COVID-19. Repetimos a frase mesmo de propósito. Repetimo-la porque assim é. Porque o conjunto dessas palavras, no seu todo, ocupa o grosso da nossa existência em 2020. O vinte vinte é o ano da pandemia. Tinha tudo para ser um ano bonito. Até na sua composição numérica: 20.20. Porém, foi tudo ao contrário. Um ano de medo. De terror. De incerteza. De angústia. Um ano dramático. Para o mundo todo. Para todo o mundo. É o ano em que Donald Trump, que há quatro anos atrás tinha surgido como o homem dos sete ofícios da política mundial – com epicentro na América –, caiu como um patinho aos pés de um Joe Biden, que nem sequer pensa fazer mais do que um mandato, porque o tempo não lhe corre a favor. Portanto, o ano 2020 não é um ano qualquer. Ficará na história como um ponto negro. Mas, também, como um ponto de esperança, uma vez que, em menos de um ano, o homem conseguiu encontrar caminhos para inverter o curso de um vírus que viaja em velocidade cruzeiro. A emblemática capa da revista brasileira Veja, de ontem, dá conta desta situação:

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, texto que diz "Abril veja Edtera M 10053-151 UMA CONQUISTA HISTÓRICA Em apenas onze meses, na mais fascinante aventura cientifica de nosso tempo, um mutirão de cientistas e todo mundo conseguiu desenvolver uma vacina eficaz contra Covid-19. No Brasil, contudo, vírus ideológico pode atrasar a imunização"

A COVID-19, uma doença com familiaridades com a gripe, é mais violenta do que a gripe: a carga viral é mais forte; o potencial de contágio é muito maior. E, em determinadas franjas da população, o seu potencial de letalidade é muito mais preocupante. Não ter havido, à época, uma vacina para combater o desconhecido piorava ainda mais a situação.

Quando o novo coronavírus chegou a Cabo Verde parecia acontecer uma espécie de eclipse social. O medo, os receios e as incertezas assombraram quase toda a gente. Um estudo que surgiu, à época, então acabou por lançar o pânico geral. Pelos números que apresentou, fez-se cair como uma sentença de morte no seio de cada família destas ilhas. Ainda bem que ficou pelas previsões. E as previsões não aconteceram.

Hoje, viemos aqui para falar sobre a pandemia. Compreender o que é uma pandemia. Muitos já o sabem. Quem não precisar deste conhecimento, pode passar para outros conteúdos. Este texto é mesmo para quem queira ou precise de compreender um pouco mais desta matéria.

A pandemia é uma coisa dos nossos tempos. Mas, não só. É também uma coisa de outros tempos. Vamos falar aqui de alguns elementos que marcam os contextos de pandemia.

Afinal, o que é uma Pandemia? Ela é o mesmo que uma epidemia? E a endemia, o que é? Então, vamos a esses o qu’ês...

Epidemias, endemias e pandemias são conceitos que ouvimos frequentemente, sem, na esmagadora maioria das vezes, darmos uma atenção especial ao conteúdo que encerram. A epidemia acontece quando há surtos (aumento repentino do número de casos de uma doença numa determinada região) de uma doença em diversas regiões. Ela pode ser tanto municipal (quando temos, dentro de um mesmo município, surtos em várias regiões) como nacional, quando a situação prolifera para diferentes sítios de um país.

A pandemia já amplia a escala de gravidade. É já um cenário mais dantesco de uma situação que começou como epidemia. A declaração de pandemia pressupõe que a escalada da doença se torne transfronteiriça. Desta feita, os surtos irrompem em várias regiões do mundo e a preocupação se torna global porque, em boa verdade, não se sabe quando é que os surtos aparecem num ou noutro lugar do mundo, uma vez que cidades, países, aeroportos, portos e linhas ferroviárias estão em ligação permanente, corporizando o circuito da circulação das pessoas no mundo. É o que aconteceu com o novo coronavírus que, num primeiro momento foi declarado como epidemia, mas já, em poucos meses, passou a pandemia, no sentido de que se percebeu claramente que, se por um lado propagava no espaço global, por outro, havia uma proliferação interna, dentro dos países.

O conceito de endemia remete-nos para outro universo de classificação. Não nos leva à questão do volume de transmissão e de propagação da doença no espaço, mas tem a ver com o enraizamento de uma determinada doença num espaço geográfico. Desta feita, aquela doença acaba por ser classificada como algo típico daquela região. Isso faz com que, quando alguém vai viajar para aquela região, tenha que se precaver, tomando algumas medidas antes de partir. Os próprios estados nacionais têm tido essa preocupação, de fazer um controlo das viagens, através dos boletins de vacinação ou de outras cartas de saúde, para apertarem a vigilância, quando os cidadãos que residem nos seus territórios viajam para territórios onde determinadas doenças ali se encontram enraizadas, praticamente, sem tempo para acabarem.

O novo coronavírus começou como um surto, para ser rapidamente epidemia. Mas, dali para se tornar numa pandemia não levou muito tempo. Os desafios do mundo, neste momento, passam por continuar a travar um combate severo à doença para que ela não se enraíze e não se torne numa endemia. Os imunizantes poderão ter um papel de extrema importância nesse aspecto. Ajudam a levantar uma cerca sanitária à doença e, desta forma, podendo ser combatida, com a possibilidade para que seja erradicada.

Salienta-se que, nos nossos dias, é possível que haja muito mais facilidade no aparecimento de situações de pandemias. A quebra das barreiras fronteiriças entre países facilitam o trânsito das pessoas de um lado para o outro, podendo transportar doenças de uma realidade geográfica para a outra. A rapidez com que a COVID-19 se propagou no espaço é sintomático dessa realidade. É assim uma pandemia. Ela nunca vem sozinha.