ANÁLISE POLÍTICA | Legislativas e Presidenciais. Guerra de Discurso entre MpD e PAICV. O que Será de Cabo Verde nos Próximos Tempos?

ANÁLISE POLÍTICA |  Legislativas e Presidenciais. Guerra de Discurso entre MpD e PAICV. O que Será de Cabo Verde nos Próximos Tempos?

Na ilha do fogo para a tomada de posse das equipas camarárias eleitas pelas listas do PAICV, a líder do partido da independência critica a governação do MpD, dizendo ser necessário uma governação para todos. Aliás, neste capítulo, Janira Hopffer Almada recorre ao próprio lema do partido, que elegeu Francisco Carvalho na Cidade da Praia: “Uma Praia para Todos”.

 

A presidente do PAICV afirma ter recebido “relatos que me chegam, de vários pontos do território nacional, que me dão conta dum agudizar da perseguição a cabo-verdianos que trabalham em diversas Instituições do Estado, por motivações unicamente políticas!”. Por isso, considera que não poderá ficar indiferente perante a situação, que, para ela, vem desde 2016, com a eleição do MpD para assegurar o governo da República.

Janira Hopffer Almada lembra das promessas do Movimento para a Democracia nas campanhas eleitorais de 2016, em que Ulisses Correia e Silva prometeu despartidarizar a Administração Pública. No seu entendimento, o que viria a acontecer, depois da instalação do governo saído das legislativas de 2016, é “precisamente ao contrário, com nomeações unicamente políticas, para além da perseguição ilegítima àqueles que não eram do Partido no poder!

Com as últimas eleições autárquicas, esse espírito de controlo e “punição” a funcionários públicos, a pessoas que não têm Partido ou que não militam no Partido no Poder, começa a agudizar-se!”.

No país, os sentimentos à volta desta matéria se dividem. Ulisses Correia e Silva perdeu, nos últimos quatro anos, uma forte base eleitoral que, inclusive, neste momento, traz inquietações nas hostes do partido. Subjacente a essa perda, está o facto de muitos militantes e simpatizantes do MpD terem criticado a cúpula do partido de ter estado a governar, maioritariamente, com pessoas do PAICV nas chefias. Isso faz com que alguns militantes e simpatizantes do partido se tenham sentido ‘traídos’ pelos dirigentes do partido, na medida em que entendem que as suas expectativas não se cumpriram. Queixam-se, constantemente, do abandono do partido à sua base eleitoral.

Do lado do PAICV, a perspectiva é outra. Dos militantes à cúpula do partido, o discurso é que, com o MpD no poder, deu-se uma incrementação da partidarização da administração pública. Inclusive, no início, a política do MpD que apontava que os militantes do Partido, para exercerem cargos de gestão no sector empresarial do estado e nas instituições públicas, tinham que entregar uma carta que sinalizava a sua desvinculação do partido, foi seriamente criticada por PAICV que, na altura, disse que uma carta não fazia com que a pessoa deixasse de ser do MpD.

As eleições autárquicas de 2020 reposicionaram o debate político no espaço público cabo-verdiano. O MpD, que tinha assegurado 18 dos 22 municípios (havendo mais dois independentes próximos do MpD que ganharam as eleições: Ribeira Brava de São Nicolau e Boa Vista), sofreu uma machadada na sua pujança autárquica. O PAICV, praticamente moribundo no poder autáquico cabo-verdiano entre 2016 e 2020, ganhou um novo alento, conquistando mais seis Câmaras Municipais, que se acrescentaram aos dois que tinha no mandato 2016-2020. Isto fez com que surgisse, no eleitorado do PAICV, uma certa esperança de que o Poder poderá estar de volta. Portanto, as eleições legislativas de 2021 estão praticamente à porta e a pré-campanha e a campanha eleitoral vão conciliar dois elementos importantes: por um lado, serão uma estratégia muito bem afinada e muito bem montada; mas, por outro lado, haverá, dos dois maiores partidos cabo-verdianos, um ‘trabalho de tractor’, na medida em que, cada um deles, procurará avançar com toda a sua robustez. O PAICV vai querer, a todo o custo, alcançar vitória nas eleições legislativas de 2021, até porque a Janira Hopffer Almada não quererá ser a página negra na história do partido. Já deu mostras de não querer esse estatuto para ela, quando preparou meticulosamente as autárquicas de 2020 e surpreendeu o MpD, que não estava à espera de uma reação dessas do seu principal opositor. Do lado do MpD, Ulisses Correia e Silva, também, não quererá ocupar uma página cinzenta na história da governação do país, conseguindo uma vitória estrondosa no primeiro mandato (e nas eleições subsequentes, autárquicas e presidenciais – relativamente ao candidato apoiado pelo Movimento para a Democracia) e caindo, de pé, nas eleições seguintes, ficando por um único mandato; algo que ainda não aconteceu no país. Seria inédito. Seria, praticamente, o fim das expectativas de Ulisses Correia e Silva de, um dia, chegar a Presidente da República. Não iria assegurar uma base forte e nem credibilidade para isso.

Hão-de perguntar: Mas, ele disse que quer ser Presidente da República? Não, não disse, pelo menos em espaços públicos. Porém, a tradição política, cabo-verdiana e internacional, tem mostrado que os chefes de governo, quase sempre, quererão acabar a carreira política interna como chefes de estado. José Maria Neves tem estado a posicionar-se para propor aos cabo-verdianos esse caminho. Carlos Veiga já o tentou. Carlos Veiga quer tentar, de novo. Ulisses Correia e Silva deu um sinal, quando indicou Olavo Correia como vice-primeiro-ministro. Olavo Correia ocupou o cargo e praticamente encheu o espaço todo. Quase que perfilou como o candidato legislativo.

Porém, nas entranhas do MpD, muita coisa ainda está por definir-se. Enumeramos algumas delas: que lugar ocupará Olavo Correia no partido? Que lugar ocupará Fernando Elísio Freire no partido? Que lugar ocupará Jorge Santos na definição dos apoios presidenciais do Partido? Que lugar ocupará Carlos Veiga na definição dos apoios presidenciais do MpD? Que lugar ocupará Ulisses Correia e Silva no futuro do partido? Que lugar ocuparão os militantes nas políticas internas do partido? A definição das respostas a estas políticas poderá levar o PAICV a ocupar lugares estratégicos de Poder no país. Ou no governo, ou nas presidenciais... se as coisas não correrem bem. O problema dos partidos políticos é, na maioria das vezes, o problema dos egos pessoais, o problema dos interesses pessoais e o problema de interesse de grupos localizados no seio desses mesmos partidos. Isso é que leva as oposições ao poder. Isso é que arreda os partidos do arco do poder dos círculos governativos. Algumas perdas de posições do MpD nas autárquicas de 2020 deveram-se, essencialmente, a guerras fratricidas por posições de poder no seio do partido. E se nada for feito para contrariar este sentido de coisas, o futuro do partido está apresentado, em miniatura, nestas autárquicas de 2020.

O xadrez político cabo-verdiano está em recomposição. As peças estão sobre a mesa. Quem for mais habilidoso levará a melhor. Ulisses Correia e Silva não vai ter um PAICV desgastado de 2016 e uma Janira Hopffer Almada num ‘percurso ilha’ dentro do partido, de costas voltadas com José Maria Neves, com Felisberto Vieira, com Cristina Fontes... e demais e demais pesos pesados do seu partido. Os pesos do PAICV vão juntar-se para reconquistarem o Poder... nas legislativas e nas presidenciais. Ulisses Correia e Silva estará, por estes dias, numa luta titânica para evitar o esmurecimento progressivo da base eleitoral do MpD, que se reclama da cúpula do Partido que, nestas autárquicas, perdeu parte da vontade eleitoral dos seus apoiantes, engordando o eixo da abstenção. Com estas autárquicas, pode-se dizer que o PAICV está de voltas. Nos próximos tempos, as eleições não serão um passeio para o MpD. E, se a cúpula do partido, nas percebeu isso, não percebeu missa metade do desenho das vontades eleitorais dos cabo-verdianos.

 

Análise Política da Redação do Jornal Arquipélago.

Cidade da Praia: 20/11/2020.