Política em São Vicente e os Seus Ensinamentos

Política em São Vicente e os Seus Ensinamentos

ANÁLISE POLÍTICA

Parte I de III

São Vicente nunca foi uma ‘sociedade chave na mão’. Já teve as suas figuras de peso na política local, como Isaura Gomes e Onésimo Silveira, que fizeram lideranças fortes, mas sempre indo em linha com a expectativa de cada momento da população local porque, ali, os erros (destoamento em relação à vontade geral, seja ela qual for) são pagos a peso de ouro. Portanto, todos que conhecem, minimamente, o espírito de vivência e do sentido colectivo dos são-vicentinos sabem que, em defesa de uma visão conjunta, tudo é passível de contestação. Esse espírito contestatário, muitas vezes, é absorvido por alguns grupos sectários, com agendas próprias, que, muitas vezes, procuram fazer passar como vontade geral as suas próprias visões do mundo e procuram, no espírito colectivo são-vicentino, um efeito arrastador. Porém, não é isso que este artigo procura tratar. Olhemos para a situação crispante que se vive, hoje, começando com as campanhas para as autárquicas de 2020, passando pela instalação dos órgãos municipais, até chegarmos à primeira reunião da Câmara Municipal.

 

Das Campanhas Eleitorais

As campanhas eleitorais são dos momentos mais vivos na vida do país.  Por regra, elas devem ser o alimento da democracia, na medida em que são instrumentos de capacitação dos cidadãos para tomarem uma decisão-chave na vida de um país. É exatamente isso que acabaram de ler. A campanha eleitoral tem a função de capacitar os cidadãos para a tomada de decisão. Essa capacitação não é feita como nas escolas e centros de aprendizagem, mas resulta de um processo de informação, no sentido de permitir aos cidadãos conhecerem os projectos, os candidatos, as suas ancoragens, as suas trajetórias, os conhecimentos, as experiências e a preparação dos ‘players’ políticos para a assunção de responsabilidades públicas.

Nas campanhas eleitorais, os candidatos e os partidos políticos que os suportam têm a possibilidade de promoverem as suas imagens e os seus planos de governação, mostrando aos cidadãos o que poderão esperar com a sufragação daquele projecto político nas urnas. Desta feita, é possível, assim, um contacto directo dos actores políticos, com as várias franjas eleitorais que constituem o tecido eleitoral daquela sociedade. Como sabemos, a sociedade, para além de ser constituída por indivíduos, ela também integra grupos (de pessoas ou mesmo de pessoas e organizações sociais). Esses grupos, normalmente, têm interesses e nem sempre esses interesses se convergem. Por vezes, são interesses concorrenciais. O atendimento de um poderá implicar, muitas vezes, o descuramento de outros. Por isso, nas campanhas eleitorais, não são apenas os candidatos e os partidos políticos que são concorrentes, mas há grupos que se aliam às propostas, aos candidatos, aos projectos políticos e aos planos de governação para defenderem os seus interesses.

Como por detrás das campanhas eleitorais há interesses em jogo, a luta é hercúlea. Partidos Políticos, candidatos, simpatizantes, militantes, grupos sociais, cidadão comum, não têm mãos a medir para verem as suas ambições sufragadas no tribunal da vontade popular. É nesta luta abrangente que se dão, muitas vezes, os excessos. Mas, não é só dela que os excessos derivam. Podem ser, também, incompatibilidade de feitos, problemas pessoais do passado ou do presente e outras discrepâncias entre vontades e visões das coisas que poderão levar a estes destinos. Assim sendo, não faltarão motivos para tornar as campanhas eleitorais em campos de guerrilhas discursivas urbanas. É basta que haja uma pequena vontade para que o deslize seja total. Isto, se não houver comedimento pelo caminho.

Nas campanhas autárquicas para 2020 (ou mesmo antes de elas se terem iniciado de forma oficial), algures pelo caminho, uma ou outra sondagem terá dado a perceber a António Monteiro, líder da UCID, que ele seria o Presidente da Câmara Municipal de São Vicente. E todas as forças desse político terão sido empregues neste sentido. Augusto Neves claramente não queria que essa possibilidade se concretizasse, assinalando o seu afastamento do terreno das disputas políticas em São Vicente. Também empregou todo o seu engenho político. E nisso de um não querer deixar perder a derradeira oportunidade que a Sondagem apresentou e outro não querer assinar a sentença do seu derradeiro mandato, deu-se o que se tem visto: um Augusto Neves e um António Monteiro sem vias de entendimento. Haverão mais motivos para este desacerto, com certeza. Os dois devem conhecer muito mais os meandros da questão. Porém, é de se assinalar que o nível de crispação que ocorre entre os dois sinaliza que o problema, praticamente deixou de ser apenas uma disputa política, para se tornar em atritos pessoais. O facto de António Monteiro, depois de se conhecer o resultado das eleições autárquicas, ter dito que nunca iria se sentar à mesa com Augusto Neves para qualquer procura de entendimento na questão da governabilidade do Poder Local em São Vicente, podendo fazê-lo com o MpD em outros níveis de direção, é sintomático de que queria comunicar que o seu problema não era, propriamente, uma incompatibilidade com o MpD na governação de São Vicente, mas sim, uma incompatibilidade com Augusto Neves. Isso, independentemente de para que lado a razão pende. Não nos dispomos aqui a avaliar as razões de cada um para o estado a que chegaram as relações entre os dois, mas queríamos apenas evidenciar alguns sinais de possível trânsito de problemas políticos para os problemas pessoais.

Há uma outra questão aqui a considerar: a luta pelo controlo/domínio de território. A UCID – pese embora as dificuldades que tem tido na sua implementação no território eleitoral em Cabo Verde –, conseguiu um feito que, para o partido, é muito importante: ser o segundo partido eleitoralmente mais forte em São Vicente. Isso é muito importante. Conseguiu solidificar essa posição nestas autárquicas de 2020. E quando se está em segundo lugar, a sensação com que se fica é a de que o primeiro lugar está ali perto: que é basta mais um esforcinho para se alcançar a liderança do pódio. Desta forma, o esforço é grande. Sabendo que, do caminho que tem feito até agora, o único Município no país onde a UCID tem a possibilidade de chegar à liderança autárquica é São Vicente, não irá recuar um único milímetro nesse combate. Daí a guerra de território entre Augusto Neves e António Monteiro. O líder da UCID tem nesse combate um outro objetivo em meta: é que, mesmo não assegurando a Câmara Municipal de São Vicente, não quererá ter nenhum recuo nas conquistas do partido para as legislativas. O seu objetivo, nessa matéria, é bem claro: conseguir cinco deputados e formar um grupo parlamentar na Assembleia Nacional. Isso daria à UCID outra desenvoltura política. Teria mais meios e mais espaço de ação política. Portanto, a luta de António Monteiro, o mais certo, é que não tenha apenas no horizonte a conquista da Câmara Municipal de São Vicente. Na verdade, o que está em jogo é a ‘conquista de São Vicente’... e, nessa conquista, poderia vir, por arrastamento, a Câmara Municipal, a Assembleia Municipal, um Grupo Político na Assembleia Nacional, mais deputados, mais recursos para o partido e mais base eleitoral. Conseguindo isso, a UCID poderia estar a sonhar em ser uma terceira via no ambiente político cabo-verdiano. Seria um fiel da balança, podendo emagrecer os partidos maiores e chegar ao poder por via de alianças para a formação de maiorias parlamentares, para se garantir a estabilidade governativa. O caminho que os democratas cristãos estão a trilhar poderá ser esse. Porém, não será um caminho fácil. Se António Monteiro não arreda o pé, Augusto Neves também não. E a corda vai esticar. Até onde? O futuro di-lo-á.

Os problemas políticos resolvem-se muito mais fácil do que os problemas pessoais. Se, em boa verdade, as ações políticas podem mexer com sistemas emotivos, a política em si não se rege por sentimentos. E, por isso, não guarda ressentimentos. Porém, no foro das relações pessoais, raramente, isso não acontece. As pessoas são a razão. Mas, muitas vezes, também são emoções. E, num bom ditado popular, “quem não sente, ou não é gente, ou não é filho de boa gente”. Augusto Neves e António Monteiro, como são gentes e se consideram filhos de boa gente, portanto, sentem. E sentem ao ponto de chegarem onde estão.

Na segunda parte, que é a Parte II de III, iremos analisar a instalação da Mesa da Assembleia Municipal e, por fim, na Parte III de III – que é a última desta trilogia de artigo de análise sobre a situação política de São Vicente, feita aqui pelo Jornal Arquipélago, a nossa incidência será sobre a realização da Primeira Reunião da Câmara Municipal, a distribuição dos Pelouros e a agudização das crispações entre António Monteiro e Augusto Neves.

 

Boa Leitura. Boas Festas!

Redacção/Jornal Arquipélago – 2020.