RUMO ÀS LEGISLATIVAS | Janira e Ulisses Foram Ao Norte de Santiago Neste Fim de Semana

RUMO ÀS LEGISLATIVAS | Janira e Ulisses Foram Ao Norte de Santiago Neste Fim de Semana

ANÁLISE POLÍTICA | Cabo Verde em Perspectiva | Horizonte 2021

 

Este fim de semana, para Ulisses Correia e Silva, foi tempo de sementeira. Por entre os vários compromissos, houve tempo para um banho no mar na Baía do Tarrafal. Mas, o Presidente do MpD não se deslocou ao norte da ilha de Santiago para um simples banho no mar do Tarrafal. Tinha encontros de trabalho pelo Norte de Santiago. E terminou o dia de domingo a dar os parabéns a Alberto Mello (Beta), por ter sido eleito Coordenador do Partido na Cidade da Praia.

 

Afinando a locomotiva para as legislativas de 2021, Ulisses Correia e Silva, por estes dias, não tem mãos a medir para o volume de responsabilidades que lhe está sobre os ombros. Não teve tempo para acompanhar, fisicamente, a eleição do Coordenador na Praia. Porém, não tinha, necessariamente, que estar na capital do país. A candidatura de Alberto Mello não se posicionou como uma candidatura de ‘flancos’... daquele tipo em que os partidos se dividem e cada parte abraça uma candidatura para, juntos – aqueles que vencerem, claro! – alcançarem os seus objectivos lá mais para frente. Neste tempo, se o MpD partisse para caminhos desses na cidade da Praia, seria a ‘morte do artista’. Como Beta praticamente já estava eleito desde que as possibilidades de se apresentar uma outra candidatura encerraram, Ulisses Correia e Silva partiu para outras jornadas desta longa azágua que liga as autárquicas às legislativas e estas às presidenciais.

Encontrou-se com militantes em Santa Catarina de Santiago. Depois, Tarrafal de Santiago. Santa Cruz também esteve na agenda do Presidente do MpD. Ulisses Correia e Silva ouviu... disse... e aproveitou um banho no belo mar do Tarrafal. Ao fundo, na fotografia 'postada' no Facebook, via-se uma embarcação de boca aberta. Lá dentro, pescadores na faina. Isso, no mesmo dia em que corria a notícia de que um pescador cabo-verdiano (atualmente, cozinheiro em Lisboa) salvou a vida a um homem de 86 anos de idade, que se encontrava com a cabeça enterradas nas gélidas águas do Rio Tejo. Coincidências. Cabo Verde tem talentos. Cabo Verde é mais de 90 por cento mar... e o resto é puro talento. A escola do mar salva vidas. Quem por lá passar, transporta ensinamentos para a vida toda. E o mundo é lindo... no meio das suas contrariedades.

O tempo que se vive é de imensos desafios para os políticos cabo-verdianos. Janira Hopffer Almada quer chegar ao Poder em Abril de 2021 e Ulisses Correia e Silva não quer esse desfecho eleitoral. Por isso, cada um tem montado a sua estratégia de trabalho. Janira mais ‘na sombra’. Mais nos bastidores. Menos visível nas suas ações partidárias. Ulisses mais a ‘céu aberto’; mais à luz do dia; mais numa estratégia de mobilizar as massas do partido.

Não se poderá dizer que Janira Almada acha que tem tudo garantido. Até porque, embora tendo uma recuperação vistosa das Câmaras Municipais, não tem vitórias em termos absolutos: não as tem em número de Câmaras Municipais conquistadas, nem em número de votos absolutos assegurados. Assim, Janira Hopffer Almada, mais do que ninguém, sabe que os votos que conseguiu nas autárquicas de 2020 não são suficientes para as suas ambições de 2021. Isso, por mais que se diga que as autárquicas e as legislativas são eleições diferentes, as possibilidades de 'contágio' são evidentes. As pessoas têm tendência de manter a sua orientação de voto num curto período de tempo... a não ser que algo ou alguém as mude a orientação. Por isso, fora do radar ou diante dos holofotes, Janira Hopffer Almada está a trabalhar para 2021. O trabalho eleitoral é uma sementeira contínua. Janira tem vivido a azágua das eleições... dentro e fora do partido. Este fim de semana, também andou pelo Norte de Santiago. Santa Catarina. O mesmo concelho onde esteve Ulisses. Janira no domingo. Ulisses antes dela. Por estes dias, o Norte da Ilha Maior está perante os holofotes... dos Partidos Políticos.

Janira foi para uma conversa aberta com as mulheres. Diz ter levado na bagagem a vontade de construir um Cabo Verde para Todos. Já se estava a ver. De uma ‘Praia para Todos’ para um ‘Cabo Verde para Todos’ era apenas um salto. De qualquer forma, sabe-se que não são os ‘slogans’ que ganham as eleições. Janira também sabe disso. O “Órgãos pa Nôs Tudu”, de António Fernandes, era uma versão de “Praia para Todos”, com marcas linguísticas do cabo-verdiano. Mesmo tendo sido reforçado (e muito reforçado com música, dança e ‘sound-bite’ ‘Lela é Muito Mau... Muito Mau... Muito Mau’), não ganhou as eleições. Numas eleições, as palavras podem ser  (e são) muito importantes, mas elas sozinhas não são suficientes para se garantir vitórias. Outros elementos de ponderação pesam nas decisões dos eleitores. As vitórias e as derrotas nas eleições devem-se a múltiplos factores:

- Mensagem;

- Imagem;

- Comunicação;

- Propostas;

- Candidatos;

- Historial do candidato e do partido;

- Património governativo do Partido e do Candidato;

- Contexto Social;

- Conjuntura Económica;

- Estado de Espírito Colectivo de uma Nação;

- Estado de alma dos vários nichos eleitorais;

- Capacidade de convencer o eleitorado da bondade das propostas;

- Capacidade de Mostrar ao Eleitorado que a sua Vida Pode Melhorar com a Implementação da Proposta;

- Programas de Governação Portadores de Futuro e de Esperança;

- Capacidade de Diálogo Interno dos Partidos Políticos;

- Capacidade de Mobilização do Eleitorado;

- Capacidade de Convencer os Indecisos;

- Conhecimento das Formas de Abordar o Eleitorado Flutuante;

- Nível de Confiança que os Candidatos e as Suas Mensagens Passam ao Público.

- Etc.

- Etc.

- Etc.

Portanto, são vários os factores que explicam as vitórias e as derrotas nos embates eleitorais.

O espectro eleitoral das legislativas do país não se faz somente com Janira Almada e Ulisses Silva. Há mais ‘players’.

António Monteiro sabe que só com uma ‘revolução’ é que chegará a Primeiro-Ministro em 2021. E nem é uma questão de estar a desmerecer o líder dos democratas cristãos. Para se ganhar as eleições, é preciso ter uma base partidária imensa. Abundante. Suficiente. Ou mais do que isso. É essa base que o MpD tem e que adormeceu, parcialmente, nas autárquicas e que Ulisses Correia e Silva tenta acordar agora. Também essa base tem-na o PAICV e esteve ativa nas autárquicas, fezendo o Partido passar de duas Câmaras Municipais para oito, mas que não foi suficiente para igualar o Partido da Independência ao Partido da Democracia na conquista de Câmaras Municipais. Essa base... a base que leva um partido à liderança do Governo, a UCID não a tem. E, avaliando o percurso do partido desde o seu aparecimento até esta data, dificilmente a terá tão cedo. É que a UCID não se afirmou como uma terceira força política. É o terceiro partido político em termos de ‘score’ eleitoral, mas não ocupa o lugar de ‘terceira via’, porque não constitui, por ora, uma via de força para se alcançar o poder. Nunca esteve na eminência de chegar ao Poder. Quer se goste, quer não, a UCID ainda nem chega a ser um partido regional. É mais um partido local do que regional. Pode concorrer a várias regiões eleitorais do país, mas os resultados que tem conseguido dizem muito da sua base de implementação nestas ilhas. Isto, partindo do princípio de que, do lado de Norte do País, um partido regional não ficaria só por São Vicente... em termos de área geográfica de implementação. Teria, também, influências substanciais nas ilhas vizinhas, como, por exemplo, Santo Antão ou São Nicolau.

Do Partido Popular, pouco menos se pode falar. O PP, ainda, não conseguiu encontrar um registo na política em Cabo Verde. Nem sequer, estamos a falar de um lugar... de um espaço. Estamos a falar de um registo. É que, na esmagadora maioria das vezes, os pequenos partidos, para se afirmarem, desenham uma agenda de nicho; especializam-se em causas próprias; dirigem-se a um público específico. Pequenos partidos, generalistas, têm tudo para não darem em nada. Os grandes partidos generalistas ocupam-lhes o espaço todo. Os partidos pequenos sobrevivem melhor quando têm ‘agendas especializadas’. E o PP tem tentado isso... um exemplo dessa tentativa é a “Praça do Palmarejo”... ou outras coisas mais. Mas, o nível da especialidade ainda não é suficiente para dar a perceber bem quais causas o partido defende. Porque, se forem todas, está na linha dos grandes partidos generalistas, aqueles que ocupam o grande território do poder político, com amplas agendas e debates alargados sobre todos os assuntos que marcam a existência de uma sociedade. E assim vamos... rumo às legislativas de 2021... contra ventos e marés... lá chegaremos.