REPORTAGEM | Mónica Sofia - “Nacionalidades, temos muitas... mas, naturalidade é apenas uma”

A emigração tem sido um selo da existência do cabo-verdiano. São décadas e décadas em que os filhos do arquipélago saem para terras europeias, americanas, africanas e em outras paragens. A justificação é sempre a mesma: procura de melhores condições de vida. Essa procura manifesta-se de muitas formas: procura de trabalho, procura de conhecimento, procura de saúde. Por onde o cabo-verdiano passa, deixa a sua marca.  Com Mónica Sofia Duarte, não foi diferente. Na República Checa, criou a Fundação Esperança de Cabo Verde (Naděje Cabo Verde, na língua checa). Mónica Sofia é Modelo Internacional. Nasceu em Santa Cruz. Procurou Universidade em Portugal. Encontrou a luz dos palcos na República Checa. Ali, encontrou outras coisas: o caminho para a solidariedade para com o seu povo. Cada dia que se passa, a sua alma amplia.

 

Recentemente, Mónica Sofia passou por Cabo Verde. Voltou ao berço. É aqui que a sua raiz está impregnada na terra. Estando onde estiver, não esteve de costas a Santa Cruz. Mas, ela não se alinha apenas com o Município que lhe emprestou o chão para pisar. O 'Jornal Arquipélago' acompanhou a Mónica Sofia, na sua visita e entrega de donativos. O interior de Santiago apaixona Mónica Sofia, que tem feito doações em Santa Catarina, Calheta, Assomada e, claro, o Concelho de todos os seus sonhos: Santa Cruz.

Quanto à implementação do projecto 'Naděje Cabo Verde', Mónica Sofia contou-nos que a iniciativa surgiu através da observação da realidade vivenciada pelas mulheres e crianças em Cabo Verde, sobretudo no Concelho de Santa Cruz. Disse, ainda, que começou por apoiar as pessoas em Cabo Verde de forma individual, mas reparou que o apoio não era suficiente. Começou a fazer campanhas pelo projecto 'Naděje Cabo Verde', de forma a torná-la mais abrangente e com um carácter mais “sério” e credível. Neste sentido, realizou a primeira gala beneficente no Palácio Žofín, na República Checa, denominado de “Hope Cabo Verde”. A gala aconteceu a 15 de Maio de 2019 e tinha como objectivo principal arrecadar fundos para a compra de três autocarros e donativos para Cabo Verde, beneficiando as crianças que vivem em condições precárias e proporcionando-lhes melhores condições de aprendizagem, já que, segundo Mónica Sofia, alguns estudantes são obrigados a percorrer mais de 20 quilómetros por dia para chegarem às escolas. O evento contou com a presença de algumas entidades cabo-verdianas, nomeadamente a da Primeira-Dama, Lígia Fonseca, que é madrinha dos projecto da Naděje (Esperança) Cabo Verde. Também estiveram presentes o artista plástico, Hélder Cardoso, os músicos Legemea e Romeu de Lurdes e o presidente de Câmara Municipal de Santa Cruz, Carlos Silva.

Mónica Sofia afirma que o evento serviu para dar carácter mais realístico ao projecto e, também, fazer publicidade aos trabalhos realizados no âmbito do projecto. Durante o evento, arrecadaram 350 mil coroas, correspondentes a 1.455.026$98cv. Porém, a grande exposição mediática que o evento teve fez com que pessoas que não estavam no lugar do evento 'abraçassem' sonhos da menina de Santa Cruz. Apoios houve o quanto baste. Mónica Sofia conseguiu comprar os autocarros. Conseguiu embarcá-los. E, hoje, encontram-se em Cabo Verde. Entrarão em funcionamento neste novo ano lectivo que vai começar, dando apoio no transporte de crianças e adolescentes para as escolas. Dois deles foram entregues ao Município de Santa Cruz e um foi para o Município do Tarrafal, em Santiago. No 'corpo' do veículos, resplandesce o azul: o mesmo que o nosso mar transporta e que alimenta a quadricomia da nossa bandeira.

 

Dificuldades identificadas pela fundação Naděje (Esperança) Cabo Verde

 

Mónica Sofia diz ser de Achada Bebel, uma localidade rural do concelho de Santa Cruz, viajou para Portugal com apenas 12 anos de idade e fez curso de licenciatura e mestrado na área da Engenharia Física e Tecnológica. Oito anos depois, ao regressar a Cabo Verde, deparou com os mesmos problemas enfrentados diariamente pelas crianças e mulheres santa-cruzenses, nomeadamente a falta de transporte escolar (sobretudo para os que residem na zona rural), a escassez de tecnologias, as dificuldades financeiras, entre outros cenários que se repetem na realidade cabo- verdiana.

Para Mónica Sofia, ao identificar os problemas vivenciados em Pedra Badejo e nas outras partes do país, regressou a República Checa continuar a sua carreira de modelo e, a partir daí, estabeleceu um contacto directo com a Câmara Municipal de Santa Cruz, liderada por Carlos Silva, para saber se, caso conseguisse apoios para ajudar Santa Cruz com transportes, equipamentos tecnológicos e outros donativos, o presidente estaria disposto a cuidar dos bens adquiridos. “Sabemos que, em Cabo Verde, quando queremos que as coisas funcionem, temos que ter um responsável para ajudar nos cuidados dos bens importados e, neste caso, a fundação Esperança Cabo Verde tem a Câmara Municipal de Santa Cruz como um dos parceiros”, afirma Mónica Sofia.

A modelo confessa que, no início, não foi fácil implementar a Fundação por causa da dificuldade em falar a língua Checa, salientando ainda que a credibilidade é muito importante na implementação de qualquer projecto e também ter autoconfiança e não desistir de sonhar com um Cabo Verde melhor.

Mónica Sofia apela às associações cabo-verdianas a se juntarem ao projecto Naděje Cabo Verde, como forma de haver um “djunta mó” na identificação e seleção dos problemas sociais, como forma de se poder proporcionar uma rápida intervenção.

A empresária Mónica Sofia, diz que a esperança é a última que morre e que é por causa da esperança de dias melhores para as mulheres e crianças mais necessitados em Cabo Verde que a fundação Naděje Cabo Verde, trabalha incansavelmente.

 

Representação da Fundação “Esperança Cabo Verde” em Cabo Verde

 

A nossa próxima missão é criar um filial de “Naděje Cabo Verde” em Cabo Verde, ou seja registar uma fundação no país, para facilitar nos envios de donativos, também promover a instituição, caso as pessoas queiram saber mais sobre o nosso trabalho no exterior. Declara Mónica Sofia.

E quanto ao espaço para implementação da empresa, Mónica diz que pretende criar uma filiação da fundação “Esperança Cabo Verde”, na Cidade da Praia, por ser Capital do País, facilitando deste modo, no processo de envio dos donativos para as outras ilhas, fazendo jus ao nome da fundação.

Apesar de ser uma das dez modelos mais bem pagas da República Checa, Mónica Sofia Duarte, diz que para ela, ser modelo, actualmente constitui um plano D, apesar de ser através da moda, que as portas se abriram. “ Constitui um plano D, porque estou focada nos trabalhos da empresa “Mónica Sofia” (com sigla: MS), virada para designe e produção de indumentárias, também está envolvida nos projectos sociais da fundação Naděje Cabo Verde na República Checa”.

Mónica Sofia é modelo, empresaria, activista social, actualmente estudante na área de comportamento empresarial na República Checa, beneficiou o Conselho de Santa Cruz, com dois autocarros e Município de Tarrafal com um transporte escolar, fruto de uma campanha de solidariedade ocorrida na capital Checa. A fundação Esperança Cabo Verde conta com parceria de Câmara Municipal de Santa Cruz, Embaixada de Portugal na República Checa, Associações Cabo-verdianas e com 20 elementos da fundação, a qual 18 faz trabalhos de forma voluntária.

NPP / Jornal Arquipélago - 2020.